O papel nada digno da mídia

27 12 2009

Para quem gosta de se debruçar com alguma paixão sobre o papel que a mídia desempenha em nossa sociedade, estes têm sido momentos de muita riqueza de ‘material’. Chega a ser vergonhoso para quem, por opção, buscou ser jornalista, formando-se não apenas na faculdade, mas através da leitura, da pesquisa – sempre, de preferência, longe do santificado saber das academias.

Na verdade a mídia se move apenas pelos seus interesses e tenho para mim que é, de todos os ‘poderes’, o que menos apego tem pela democracia, pela liberdade e pela igualdade. Guiada por parâmetros que pressupõem a prevalência do ‘finaneiro’ e da dominação sobre qualquer compromisso com a divulgação das ações governamentais, no caso Lula/PT, que tenham como premissa a construção de estruturas sociais menos excludentes e que impliquem, na manutenção e no aprofundamento das mesmas, a esperança dos excluídos de viverem numa sociedade mais justa, humana e fraterna, a mídia não age ou reage sem estar embasada em parâmetros e estratégias bem definidas.

Pouco tem se falado, até por não ser conveniente abordar estes temas dentro das academias porque isto pode levar alguns alunos de comunicação a tirar a viseira da deformação a qual hoje estão submetidos, em estudos que apontam a forma como a mídia trata de manipular as pessoas. Se observarmos o que nos indica a Agenda Setting, nos daremos conta de que os meios de comunicação não estão mais apenas interessados em  priorizar opiniões presentes na mídia. Estão indo além: eles querem na verdade determinar uma agenda daquilo que, para eles, é importante. Chegou-se ao nível de tirania no qual estes ‘meios’, que são concessões do Estado, assumem o papel de determinar o que a comunidade pode pensar ou dizer e, assim, arbitrariamente, definir, segundo seus interesses, como a sociedade vai reagir, agir ou se expressar.

Os que não concordam com esta manipulação, que são a maioria, optam por permanecer em silêncio. Com esta variável, já estamos botando o pé em outro trabalho inquietador, da alemã Elisabeth Noelle-Neumann, que busca exatamente provocar a reflexão sobre os conceitos de democracia na comunicação. Para que não se descarregue uma massante verborragia acerca da Espiral do Silêncio, vamos atentar ao que nos diz Felipe Pena, no livro Teorias do Jornalismo, lançado pela Editora Contexto em 2005: “A opção pelo silêncio é causada pelo medo da solidão social, que se propaga em espiral e, algumas vezes, pode até esconder desejos de mudança presentes na maioria silenciosa. Ou seja, as pessoas não só são influenciadas pelo o que os outros dizem como também pelo que imaginam que eles poderiam dizer.”(Felipe Pena,2005:155).

É isto que observamos cotidianamente no papel da mídia, assumindo o trabalho sujo de omitir e distorcer a realidade, de ‘esquecer’ deliberadamente assuntos como no caso aqui do DF, quando a mídia, seguindo ao que tudo indica a orientação política do governador José Serra, tirou a temática Arruda da pauta. Este é um exemplo perverso e que mostra o quão nefasta tem sido a omissão do Estado na fiscalização do uso das concessões.

O que é mais preocupante no caso do DF é a ausência de alternativas de informação, como se fossem todos cooptados pelo poder financeiro do GDF, que usa as verbas para manipular conteúdos.

Por tudo isso é importante que se leve adiante a implantação das conclusões e sugestões da 1ª Confereência Nacional de Comunicação e se parta, desde já, para a discussão dos temas de uma nova Conferência – ainda em 2010.

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6 responses

28 12 2009
Jornalista Tomaz Filho

Amigo e colega Alfredo. Há aproximadamente 10 anos, comecei a ter decepções com a nossa profissão, justamente por causa disso. Não por falta de bons profissionais, éticos, responsáveis e que dignificam a arte de informar corretamente os fatos. O foco do problema está justamente naqueles que recebem benesses para manipular a notícia, ou seja, a direção e os donos dos veículos de comunicação. Vou exemplificar, citando apenas o caso do proprietário de um periódico aquí de Brasilia que foi flagrado guardando maços de dinheiro na cueca. Não vou me alongar nos comentários, até por questão de ética. Gostaria de conversar contigo pessoalmente, não por telefone, para trocar figurinhas sobre o momento político atual. Grande abraço.

28 12 2009
André Brunckhorst

blogs, inclusão digital
são alternativas fundamentais nesse penoso
processo de democratizar a
comunicação em nosso país,

recomendo um vídeo muito didático
sobre o direito à comunicação
produzido pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com o apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung retrata a concentração dos meios de comunicação existente no Brasil.
PARA ASSISTIR ACESSE http://redeterra.ning.com/video/direito-a-comunicacao

28 12 2009
PAULO TIMM

Com razão, o artigo aponta para a distinção entre o que é liberdade de expressão e liberdade de publicação, coisas que muitas vezes se misturam nos comentários da grande mídia. A apropriação , principalmente na A.Latina, dos órgãos de comunicação por poderosos grupos econômicos faz com que se transformem em verdadeiros Partidos Políticos, com a capacidade até de depor governos constitucionalmente eleitos , quando estes procuram avançar em rumos de reconstrução social que se chocam com interesses econômicos estabelecidos. Na Venezuela e na Argentina temos visto como seus Presidentes tentam redefinir o marco regulatório das comunicações sociais , justamente para aprofundar o direito a livre expressão de seus povos. Este é um passo decisivo se desejamos aprofundar a democracia, pois não há democracia possível sem o aperfeiçoamente dos sistema que envolve a produção, tratamento e divulgação da informação. A democracia, como já advertida A.Toqueville, no Seculo XVIII, ao visitar a recente nação americana, é um vazio se não se substitui a tirania totalitária por um processo de organização social que leva os “indivíduos atomizados” a se interessarem pela vida pública. Não basta o CONTRATO.É mister o PROCESSO de ocupação ATIVA do ESPAÇO PÚBLICO criado pela democracia e neste processo a INFORMAÇÃO pública, livre e descomprometida com toda e qualquer forma de PODER e AUTORIDADE é fundamental. Vamos discutir cada vez mais esta questão. VIVA A CONFERENCIA DE COMUNICAÇÃO! QUE VENHAM OUTRAS, locais, segmentais, culturais, estaduais, sindicais etc. que discutam as teses de CONFERENCIA NACIONAL e não permitam que ela se perca nos meandros da grande política.
ASS. PAULO TIMM – Economista, Ex Presidente CONSELHO ECONOMIA DO DF, Professor UnB

28 12 2009
allan sales

Grande Alfredo.Nosso papel é esse mesmo de ser a mosca na sopa do banquete da porca burguesia.

29 12 2009
Trajano Jardim

Meu prezado Alfredo.

Para nós, professores dos Cursos de Comunicação Social, é extremamente difícil dialogar com os nossos alunos sobre os conceitos de “liberdade de expressão”, “liberdade de imprensa”, “processo de regionalização da cultura” e “democratização dos meios de comunicação”. O bombardeio de ideias exógenas que pairam no universo da mídia brasileira leva a que a formação acadêmica seja colocada em segundo plano. Principalmente quando a Justiça, por intermédio do seu mágno representante, diz que a informação não é um bem social e admite que para o exercício da profissão não é necessário que se tenha formação específica para tal.

Por outro lado, o setor de ensino superior privado, que tem 75% das matrículas universitárias em suas mãos, trata o “ensino como mercadoria”, sem que o Governo se volte para introduzir mecanismos regulatórios que ponham freio na feira que virou o ensino superior privado.

Os “barões da mídia”, na feliz expressão de Nelson Werneck Sodré, enguliram em seco a Confecom que os movimentos sociais organizados conseguiram tirar a fórceps do governo Lula. Tentaram de todas as formas desqualificá-la. Para esses senhores, que se consideram acima do bem e do mal, qualquer instrumento que vise estabelecer controle no sistema de comunicação, mesmo que mínimo, é rechaçado de pronto.

Não é de graça a campanha que fazem contra Chaves, quando este procura estabelecer normas no setor de comunicação da Venezuela. Na campanha insidiosa que fazem, de forma deliberada, confundem o termo ditadura em seus noticiários referentes ao governo venezuelano.

A luta não será fácil. Para derrotar o “latifúndio da mídia”, em primeiro lugar, precisamos de unidade das forças progressistas e consciência dos profissionais da área. Em segundo lugar, é lutar para que as decisões tiradas na Confecom sejam implantadas. Principalmente a criação co Conselho Nacional de Comunicação.

É isso aí meu caro Alfredo. O caminho é tortuoso. Mas temos que prossegir.

Trajano Jardim – Jornalista Profissional e Professor de Jornalismo Político.

29 12 2009
Xing Ling

Prof Trajano, não é difícil orientar os alunos sobre o que vem a ser comunicação social, a quais intesses a mídia conservadora atende e o que queremos para nós, que nos opomos a isto.

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