Falácias com ares de verdades

4 01 2010

Gosto de futebol  e valendo-me de uma afirmação do Roberto Carvalho segundo a qual todo mundo que tem mais de 50 anos foi bom jogador quando novo posso dizer que joguei muito. Hoje o corpo estipulou outros limites, mas ficou, óbvio, a paixão por tudo que envolve o esporte como um todo.

Mas claro que vou falar de futebol e como estamos no período de reapresentação dos jogadores depois das férias, contratação de reforços e uma série de notícias que se repetem como uma ladainha enfadonha a cada novo ano (já fiz futebol também trabalhando em rádio, jornais e TVs).

Há coisas patéticas, como as declarações de amor nos momentos de euforia, aquele beijo ensandecido no escudo do clube e outras exteriorizações da emoção momentânea. Para mim, o último jogador-torcedor foi Danrlei, goleiro do Grêmio e que em seu jogo de despedida num sábado à tarde de dezembro em Porto Alegre foi capaz de levar 33 mil torcedores ao Olímpico. E não era Grêmio contra outro time e Danrlei jogando alguns minutos, saindo de campo e tudo mais. Foi uma partida de ex-atletas, mas a torcida estava lá para se despedir de alguém que nunca escondeu sua clara condição de torcedor – e talvez isto sirva para entender algumas de suas brigas. Entender, jamais perdoar.

Fora este exemplo, haverá um caso aqui outro ali. Mas nos clubes de ponta, figuras como Danrlei deixaram de existir. Não há mais lugar para este tipo de jogador. Lamentavelmente.

Hoje, o que existe são empresários. E são os empresários, que ganham sem jogar, que estão trazendo de volta um discurso de que não é acintoso um jogador ter salários de R$ 200 mil por mês porque a carreirra é curta. Não vou usar como referência alguém que receba R$ 200 mil por mês, mas sim alguém que perceba R$ 40 mil – hoje salário de qualquer perna de pau.

Você que está lendo este texto, acha pouco R$ 40 mil?

A carreira de um jogador dura em média 15 anos. Ou seja: sem contar bichos por vitrórias, prêmios por conquistas, patrocínios com marcas de material esportivo, um jogador reserva dos principais clubes brasileiros recebe em torno de R$ 480 mil por ano. A grosso modo, isto equivaleria a uma fortuna acumulada de mais de R$ 6 milhões no final da carreira.

Mas não é asism porque daí entram os empresário, que mordem sem fazer nada entre 10% e 40% do salário, além d percentual sobre bichos, prêmios, contratos e transferências.

A carreira não é curta. O problema é a rapinagem empresarial que existe e o despreparo dos atletas. Nada tenho contra o desejo de mudar e melhorar de vida. Mas a primeira coisa que qualquer jogador faz é a comprar um carro importado. Usa isto como símbolo de status e como isca para atrair as ‘maria chuteira’ sempre rondando vestiários, hotéis e concentrações. E é bem presente o caso de Jobson, menino humilde aqui da Ceilândia e que de repente estava envolvido com atrizes…

A falácia da ‘carreira curta’ não resiste a uma avaliação desapaixonada da realidade. O que existe é um despreparo destes atletas para a vida, sendo que muito cedo caem na lábia de empresários (muitos deles, a maioria para ser mais exato, usando o futebol para lavar dinheiro) que os transformam em mercadorias, em produtos em busca de vitrine. Não há nenhuma preocupação com o ser humano, mas apenas com a possibilidade de ‘lucro’.

Olhando a qualidade de jogadors que hoje ganham R$ 200 mil por mês me pergunto: quanto valeria e qual seria o salário de um cara como o Zico, ou o Reinaldo (Atlético Mineiro), ou o Falcão (Inter), ou o De Leon (Grêmio), ou o Pelé (Santos) e tantos outros?

O Grêmio memso é especialista nestas besteiras de jogar dinheiro fora, agora memso pagando R$ 200 mil por mês para repatriar do Japão o centroavante Leandro que era do São Paulo e estava jogando lá na 2ª divisão.

Nada contra alguém ganhar bem, mas é preciso ao menos mudar este discurso de que jogador tem que ganhar muito porque a carreira dele é curta. Na verdade, ele ganha pouco – sendo que a maior fatia fica com intermediários, empresários (e alguns treinadores) e até dirigentes que pagam e depois recebem uma parte de volta.

O que deixa jogadores na miséria no fim da vida é que ao longo da carreira esqueceram que a única coisa que dinheiro não aceita é abuso. E nesta hora final, não tem empresário e nem ‘maria chuteira’ por perto…


Ações

Informação

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: