Jobim afronta Lula

5 01 2010

O gaúcho Nelson Jobim é uma figura estranha dentro da atual política nacional, não apenas pelo fato de ser anti-petista e estar em um governo do PT – até porque isto não é um caso isolado, mas bem mais comum do que se pensa. No caso de Jobim, até se compreende pela incrível compulsão que ele tem pelo poder, algo que um ego alimentado por elogios interesseiros justifica, afinal de contas, em Brasília o que mais tem é gente com o hábito de elogiar. O que é estranho é o presidente Lula tolerar as reiteradas manifestações de insubordinação e de desrespeito hierárquico. Desde a sua chegada, tratou logo de ir impondo um grupo de apoiadores que inclui o domínio e o controle da Anac, expondo antigos diretores a um linchamento moral. Como tem, por seus vínculos com Serra, com a direita mais retrógrada deste País, acesso franqueado com a mídia, acaba sendo uma espécie de ‘quinta coluna’, sempre a serviço daqueles que precisam criar e fomentar crises.

Foi assim em sua chegada ao Ministério, quando foi deselegante com Waldir Pires, diante de um omisso Lula que ali mesmo deveria ter demitido Jobim – que na verdade trabalha diuturnamente para ser o vice de Serra, numa disputa onde pelo visto só tem como adversária a Marina Silva. Percebendo a fragilidade de Lula, ele foi ampliando sua ação – cada vez mais arrogante, cada vez mais presunçoso e cada vez mais atendendo os interesses de um segmento das elites que não quer e nem aceita as mudanças que o governo vem implantando.

O episódio da Anac é patético, mas revela o quanto o governo ficou acuado pela ação da mídia – esta sim comandada por Serra e Jobim, uma dupla de velhos amigos que se move de modo muito audaz, com objetivos certeiros.

Há ainda a compra dos caças, quando ele desautorizou o presidente da República, revelando detalhes e assim evitando o anúncio da compra dos mesmos. Antes teve o episódio das escutas e tenho para mim que aquela falsa interceptação do diálogo entre Demonstenes Torres e Gilmar Mendes foi arquitetada pela dupla. Basta lembrar que Serra é especialista em plantar fatos – ainda que ele próprio seja o criador de monstrengos como a máfia das ambulâncias, etc. Que o diga Roseana Sarney, em 2002…

A crise que ele conseguiu inventar e alimentar ao se indispor conta a criação da ‘Comissão da Verdade’ revela a competência dele em afrontar o presidente Lula. Esta comissão foi longamente discutida pelo governo, seu anúncio foi adiado muitas vezes e quando foi enfim publicada, eis que se insurge uma voz que fora derrotada internamente e até mesmo em uma Conferência Nacional. Percebe-se que para Jobim não existe a questão da hierarquia, existe apenas a lealdade. E esta ele tem pela direita, por Serra e pelo seu ego.