Argentina: filhos adotivos e conivência

30 05 2010

Está nos portais: a Justiça Argentina – ah, como faz falta uma Justiça um pouco digna em nosso País! – determinou a coleta de material genético da dona do Jornal O Clarin. Por trás de uma notícia prosaica pode estar a ponta de um imenso iceberg que, uma vez confirmadas as suspeitas, pode jogar uma nova luz sobre as promíscuas relações dos donos dos meios de comunicação com os regimes ditatoriais.
Mas isto não se deu apenas ‘lá’. Aqui no Brasil, hoje é sabido que a Folha de São Paulo emprestava veículos para os órgãos de repressão.
Mas, vamos transcrever as matérias – a primeira da Folha Online, a segunda é da agência EFE e a terceira da BBC-Brasil.

29/05/2010-16h25

Justiça argentina ordena operação policial na casa de diretora do “Clarín”

GUSTAVO HENNEMANN
DE BUENOS AIRES

A Justiça argentina determinou ontem que a polícia entrasse na casa da diretora do grupo de mídia “Clarín”, Ernestina Herrera de Noble, com o objetivo de obter material genético necessário para exames de DNA de seus filhos adotivos, Marcela e Felipe.

Os dois são protagonistas de uma ação judicial iniciada em 2001, na qual entidades de direitos humanos sustentam que ambos foram raptados pelo regime militar instaurado em 1976 e, depois, entregues ilegalmente a Ernestina.

Durante uma audiência, na manhã de ontem, Marcela e Felipe haviam se recusado a fornecer amostras de sangue para comparar com o BNDG (Banco Nacional de Dados Genéticos), que reúne o DNA de todas as famílias que procuram crianças raptadas durante a ditadura.

Pouco depois, a polícia foi até a casa de Ernestina, onde os dois estavam, e levou as roupas que vestiam naquele momento. Para um canal de TV que pertence ao grupo Clarín, os dois disseram que estão sendo expostos pela juíza e que tiveram a ‘paz roubada’.

Marcela e Felipe já haviam fornecido amostras de sangue em dezembro, mas só permitiram que o DNA fosse comparado com o de duas famílias que procuram filhos desaparecidos e não com o BNDG.

O conflito judicial em torno dos filhos adotivos de Ernestina são parte da guerra declarada travada entre o grupo Clarín e o governo da presidente Cristina Kirchner, que apoia as entidades de direitos humanos que investigam o desaparecimentos de bebês durante o regime militar.

SERÁ… que não há nada semelhante entre n´´os?

09/04/2010

17h27

Filhos de diretora do “Clarín” farão comparação com DNA de desaparecidos

da Efe, em Buenos Aires

Os dois filhos adotivos da diretora do jornal argentino “El Clarín”, Ernestina Herrera de Noble, deverão comparar seu DNA com uma base de dados genéticos de pessoas desaparecidas durante a ditadura militar, apontou hoje o máximo tribunal penal de apelações da Argentina.

A decisão da Câmara Nacional de Cassação Penal satisfaz as reivindicações de organismos humanitários que pediam que os DNAs de Marcela e Felipe Noble Herrera fossem comparados com os do Banco Nacional de Dados Genéticos de desaparecidos.

No entanto, se limita a rejeitar uma apelação dos filhos adotivos de Ernestina, “pela existência de um crime formal”, sem pronunciar-se sobre a questão de fundo da longa batalha judicial que cerca o assunto, informou o Centro de Informação Judicial.

A sentença apontou que a apelação foi rejeitada por ser “inválida”, já que “não incluía as assinaturas dos afetados pela decisão, Marcela e Felipe Noble, mas só as de seus advogados”.

Afirmou, ainda, que o tribunal ditou sua decisão “sem considerar” se os estudos genéticos de Marcela e Felipe Noble deveriam ser comparados somente com os das duas famílias que apresentaram queixas ou com todo o banco de dados genéticos das vítimas da ditadura.

Felipe e Marcela Noble, ambos de 33 anos, foram adotados em 1976 por Ernestina, viúva de Roberto Noble, fundador do “Clarín”.

Uma das famílias suspeita que Marcela pode ser, na realidade, filha de Bárbara Miranda e de Roberto Lanuscou, militantes da guerrilha dos Montoneiros, dados por mortos em um tiroteio com militares em setembro de 1976.

A outra parte pede que se esclareça se Felipe seria filho de María del Carmen Gualdero, sequestrada em junho de 1976, quando estava quase dando à luz, e que desapareceu depois de ter sido levada a um prisão clandestina em Buenos Aires.

MAS HÁ MATÉRIAS/REPORTAGENS ANTERIORES QUE AJUDAM A COMPREENDER MELHOR O QUE SE PASSA PELAS TERRAS DE MARADONA E GARDEL:

29/12/2009 –  19h12

Herdeiros do “Clarín” fazem exame de DNA para determinar pais biológicos

MARCIA CARMO
da BBC Brasil, em Buenos Aires

Os dois filhos adotivos da diretora e dona do jornal Clarín, Ernestina Herrera de Noble, realizaram nesta terça-feira exames de sangue para definir se são filhos ou não de desaparecidos políticos durante a ditadura militar argentina (1976-1983).

“Hoje é um dia muito importante porque o exame pode ser feito onde a Justiça determinou, no Corpo Médico Forense, que é ligado ao sistema Judicial do país”, disse o advogado Jorge Anzorreguy, que defende Marcela e Felipe, ambos com 33 anos.

Segundo seu representante, Marcela e Felipe se apresentaram “espontaneamente” à Justiça em 2003, depois de terem sido informados de que poderiam ser filhos de desaparecidos políticos.

Em 2004, um juiz de primeira instância determinou que o exame de DNA fosse realizado no Corpo Médico Forense, mas desde então surgiu uma disputa judicial sobre o local da extração de sangue.

*Disputa *

O grupo argentino de defesa dos direitos humanos Avós da Praça de Maio deseja que os exames de DNA sejam comparados com os de 22 famílias que buscam netos que poderiam ser Marcela e Felipe.

Já os irmãos requisitaram que a comparação seja feita apenas com duas famílias.
O advogado das Avós da Praça de Maio, Mariano Gaitán, afirmou à BBC Brasil que a medida seria “ilegal” porque “desrespeita” uma lei aprovada em novembro passado.

O advogado afirma que a nova lei determina que os exames devem ser feitos no Banco Nacional de DNA e comparados com “todas as 200 famílias” que buscam seus parentes “sequestrados”, e não “com famílias específicas”. Gaitán diz que estuda pedir à Justiça a anulação do exame.

A expectativa é de que o resultado saia em entre 15 e 45 dias.

Histórico

A entidade Avós da Praça de Maio localizou até hoje cem jovens que recuperaram suas identidades após exames de DNA e passaram a saber que são filhos de desaparecidos políticos.

Em muitos casos, eles nasceram no cativeiro da mãe e foram entregues, ainda bebês, com nomes trocados, pelos militares a outras famílias.

As Avós estimam que pelo menos outros 400 jovens, agora com mais de 30 anos, ainda estejam na mesma situação.

Em novembro, o Congresso Nacional aprovou projeto de lei do governo da presidente Cristina Kirchner que autoriza a Justiça a determinar a recuperação compulsiva de amostras biológicas para determinar a identidade de supostos filhos de desaparecidos políticos.

A medida gerou polêmicas no país e levou a oposição a afirmar que o alvo eram os filhos adotivos de De Noble, em um momento de fortes diferenças do governo com a imprensa local, especialmente com o grupo Clarín.


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