Luz sobre as trevas – quem é Eduardo Jorge?

6 09 2010

Transformado numa espécie de santo e intocável pelos tucanos, Eduardo Jorge é figura no mínimo controversa – fruto típico do obscurantismo que vigorou em nosso país no reinado dos tucanos. Vale a pena resgatar este texto de 1997 que o diligente e brizolista Arthur Monteiro encaminhou.

Em lugar da aura de vbítima, Eduardo Jorge é, em verdade, um trunfo para quem quiser colocar uma coleção de tucanos atrás das grades.

05/11/97

Palácio do Planalto

O homem-Interpol

Eduardo Jorge sairá do Planalto e o governo continuará olhando as dívidas dos parlamentares

Vladimir Netto

O ministro, acumulando salário e aposentadoria: “Sou a prova viva da necessidade de mudar a Previdência”

Secretário-geral da Presidência da República, o cearense Eduardo Jorge Caldas Pereira, de 55 anos, é figura poderosa. Com um bem fornido acervo de informações sobre os bastidores do governo e do Congresso, ele é temido tanto pelos adversários como por amigos do presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem tem pelo menos dois encontros diários, às 9 da manhã e às 5 da tarde. “Homem-Interpol” é como o chamam no Palácio do Planalto, apelido com o qual o presidente se diverte. Por força de suas informações, Eduardo Jorge já se meteu em rebuliço. Em dezembro passado, o ministro Luiz Carlos Santos, da Coordenação Política, o acusou de ter pedido a lista dos parlamentares do PPB endividados com o Banco do Brasil para pressioná-los a votar pela emenda da reeleição. Até hoje Eduardo Jorge jura que não pediu a lista. De lá para cá, não se mexeu mais no assunto, mas sabe-se agora de coisa muito pior que acontece nessa área dentro do Planalto, como o desrespeito total ao sigilo bancário: o governo mantém registros das dívidas no BB de todos os parlamentares  e não só do PPB. “Isso porque a conta bancária pode influir em certas posições dos parlamentares. Algum pode ser levado, por exemplo, a votar o tabelamento dos juros a 12%”, explica um assessor. O Homem-Interpol, agora, tomou uma decisão grave. Mesmo que o presidente venha a ser reeleito, comenta, larga o governo no final deste mandato.

“Eu não estarei no próximo governo”, declarou a VEJA, na quarta-feira passada. A revelação espantou até sua mulher, Lídice, com quem é casado há 21 anos. “Você falou isso? Mas é para publicar?”, indagou ela ao próprio marido. “É”, respondeu Eduardo Jorge. “Quero consolidar esta posição.” Eduardo Jorge diz que está cansado da rotina do Palácio do Planalto e que se retira por isso, anuncia ainda que sairá para fazer a campanha de reeleição de FHC e depois não volta. Quem conhece o gosto dele pelo trabalho que realiza, e o apreço que Fernando Henrique tem pelo assessor, tem dificuldade em acreditar que não voltará. Ele não cuida de nenhuma área específica, mas influi em muitas  em geral, investigando, investigando, investigando. É sua atribuição conferir a “ficha” de todos que são nomeados para cargos no governo, pedindo informações à Receita Federal, aos tribunais de contas e à polícia. Ele também é encarregado de articular o apoio aos projetos de interesse do presidente no Congresso. Por isso, em seu computador Pentium MMX 200 estão arquivados um mapa com todas as indicações para cargos no governo e indicadores de fidelidade dos parlamentares. Com esses dados, e a influência com os ministros para liberar verbas, Eduardo Jorge é um dos principais alvos de pedidos de políticos. “Ele é o que o Luiz Carlos Santos pensa que é”, cutuca o senador Esperidião Amin, do PPB de Santa Catarina.

É ele, por exemplo, o encarregado de articular o apoio da base do governo a um projeto de emenda constitucional que regulamente a edição de medidas provisórias pelo presidente, sem limitar-lhe o poder. Na semana passada, ligou para líderes do governo pedindo a aceleração da tramitação da emenda. Eduardo Jorge também é o responsável por fazer a ponte entre o governo e a direção dos fundos de pensão das estatais, mastodontes que movimentam bilhões de dólares e decidem qualquer parada nas privatizações. “Não controlo fundo de pensão nem dou orientação de investimento”, diz. Mas que fundo de pensão passa por ele, passa. Foi assim antes da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, quando ele entrou em campo para evitar que os fundos formassem um cartel. Coube a Eduardo Jorge puxar o freio dos fundos. Às vezes Eduardo Jorge solta as rédeas. Quando o senador José Eduardo Andrade Vieira, ex-Bamerindus, brigava com Benjamin Steinbruch, da Vicunha, pelo controle da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, o secretário-geral mobilizou sindicalistas amigos do Planalto para entrar na parada ao lado do senador.

Prova viva  Formado em economia pela Universidade de Brasília, o Homem-Interpol trabalhou 27 anos no Congresso, até se aposentar em 1990. Com mestrado e doutorado nos Estados Unidos, foi convidado pelo então senador Fernando Henrique para trabalhar em seu gabinete em 1983. Aposentado pelo Senado quando tinha apenas 48 anos, Eduardo Jorge ganha 8.500 reais por mês. Soma a isso o contracheque de ministro, de 8.000. “Eu sou a prova viva da necessidade de uma reforma da Previdência, é um absurdo que eu possa acumular dois rendimentos desta maneira”, declara ele, aparentando seriedade. “Tenho lutado para acabar com isso”, salienta, ainda sério. Mas durante as negociações em torno da reforma da Previdência foi dele a idéia de acatar a sugestão vinda do Congresso para a criação do polêmico extrateto salarial. “A idéia original era que quem estivesse ocupando função temporária e fosse aposentado poderia acumular até um determinado valor. Achei que era legítimo”, afirma. Melhor seria dizer “oportuno”, já que o próprio Eduardo Jorge seria beneficiado pelo extrateto. Sem o emprego no governo, diz, pretende se dedicar a prestar consultoria na área política e legislativa. E avisa: seus torpedos continuarão a serviço de Fernando Henrique.

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