O desafio de viver fora do palanque

8 02 2011

Certa vez, ainda jornalista em Santa Catarina, fiz uma matéria com alguns ex-jogadores, lembro-me que entre eles estava Breno, que tinha sido atleta do Renner e do grêmio em Porto Alegre e depois tivera uma experiência no filme Orfeu do Carnaval. Vivíamos os idos de 84/85, lá no último quarto do século passado.
Havia em todas as entrevistas um tema recorrente: qual o maior desafio quando a carreira se encerra? E também as respostas, de um modo ou de outro, incidiam para o mesmo arrazoado: o que mais assusta é o súbito ostracismo, o não estar mais na mídia, o deixar de ser reconhecido – tanto em termos de crítica, quanto de elogio, dentro da visão emocional e maniqueísta do torcedor.
Esta é também uma árdua tarefa para os políticos, seus asseclas e assessores e toda a entourage que se move ao redor do ‘candidato’. Muita gente não quer sair do palanque, não quer abandonar aquela adrenalina de eventos, reuniões e nem mesmo o glamour de uma ‘temporada’ onde não há muito compormisso com a verdade e o político e todos os seus tentáculos podem levar a vida prometendo, jogando para um hipotético e distante “depois de eleito, a gente resolve isso”.
Mas o tempo é cruel e o depois chega. Da mesma forma que o atleta não quer pensar no que fazer depois que parar, o político e seus ‘aspones’ também não estão muito preocupados com o tempo de ostracismo de um e de cobranças de outro.
E o que se percebe, no caso de jogadores de futebol, é uma assustadora tendência ao álcool ou querem ficar envolvidos com a bola – único mundo do qual pensam conhecer um pouco. E os políticos – mais ainda seus assessores e algumas figuras que se deslumbram com a proximidade do poder – gostam desta aura de endeusamento que o eleitor acaba criando – uma vez que, na conversa, no sorriso, no abraço e na docilidade, ele pode resolver tudo.
Mas o amanhã chega e cobra o preço da realidade.
E então as pessoas enfrentam a terrível dificuldade de descer do palanque e encarar os fatos, resgatar os compromissos e entedner que ali, no exercício do poder, não estão no Olimpo entre deuses – mas estão em realidade abaixo do nível do chão e de onde apenas o exercício do poder e o cumprimento de promessas poderá guindá-los a viver em igualdade com os demais humanos.
Uma vez no poder, todas as incompetências escondidas por marqueteiros, relegadas pelo lufa-lufa do ritmo frenético das campanhas, surgem em sua verdadeira dimensão. E a verdadeira face da imbecilidade humana surge – e sempre com o mesmo discurso de não querer assumir a sua parte, dizendo-se assustado com o que encontrou.
Convenhamos… nos palanques, sendo oposição, eram exatamente as dificuldades que eram transformadas em desafios que seriam facilmente resolvidos com vontade política, com decisão, com organização.
E os assessores então, quando guindados a condições de mando, estabelecem logo sua liturgia e buscam afastar-se dos compromissos, como se estivessem num palco imaginário de luz e brilho. E quando advém a descoberta da incompetência, das limitações de há muito já sabidas – então são descarregados impropérios contra quem, por frustração pessoal, tem a coragem de tecer críticas contra deuses e deusas de patético aspecto.
Partes do cotidiano. Partes do circo -que pode transformar o eleitor em reles palhaços, mas que também tem seus leões invisíveis a devorar quem se deslumbra pensando ser eterno o que é tão provisório…


Ações

Informação

3 responses

8 02 2011
Edson Rogerio

É a primeira vez que acesso este espaço, por indicação do autor através de e-mail enviado ao grupo de discussão (encontronacionaldeblogueiros).

Gostaria de parabenizar ao Alfredo por tão brilhante e oportuna reflexão, que retrata exatamente a realidade desse nosso Brasil, sobretudo em relação aos nossos “desprendidos” governantes e seus batalhões de “aspones”.
Solicito autorização do autor para que possa reproduzir este artigo em meu blog, pois parece que foi escrito baseado na realidade de minha pequena Entre Folhas, nessas bandas de Minas Gerais.

Caro Alfredo, ao reparar bem sua foto recordei-me de você, pois participamos do mesmo grupo de trabalho (no domingo) por ocasião do encontro nacional, em agosto passado. Você teve uma participação efetiva naquela oportunidade, enquanto eu, iniciante na blogosfera e aprendiz nesse campo das tecnologias da informação, permaneci como “coruja” (caladin, mas prestando uma atenção danada).

Não tive a oportunidade de ler outros artigos, mas sei que não resistireis e fazê-lo.

Pela riqueza de conteúdo que não duvido encontrar noutras matérias, solicito sua permissão para reproduzir outras peças, obviamente que informarei a fonte.

8 02 2011
passelivreonline

Saudações…
Das mesma forma que agrtadeço suas palavras elogiosas, sinta-se a vontade quando desejar criticar algum posicionamento meu. Tens toda liberdade de publicá-los e usá-los até a exaustão.

9 02 2011
Marlene

é em Sampa, continuam armando o circo contra os ” otários” de plantão que se acham sabichões. Criam-se o caos para poder privatizar tudo o que pode e o que não pode. A boa da vez agora é a segurança pública. veja esse link:

http://anaispoliticos.blogspot.com/2011/02/geraldo-terceiriza-policia.html

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