O custo do lazer

24 02 2011

O Correio do Metrô edição 398, que circula no DF com data de 24/fev a 02/mar, traz instigante artigo sobre a dependência cada vez maior imposta pelo dinheiro às pessoas – que perderam a capacidade de conversar, dialogar, rir e fazer algo sem o tal do dinheiro. Levando em conta que o Correio do Metrô circula apenas no DF, com tiragem de 12 mil exemplares, a publicação do artigo aqui no blog possibilita que esta oportuna reflexão da psicóloga e jornalista Sandra Fernandes seja compartilhada por toda a blogosfera.

O custo do lazer

Sandra Fernandes*

Se há duas coisas no mundo que combinam são criança e diversão. Em nenhum outro momento da vida uma simples brincadeira de correr, pular ou cantar proporciona tanto prazer. De todas as regalias deixadas na infância, a que mais lamento é a perda daquela sensação gostosa de correr, correr, ficar ofegante e feliz. Toda aquela euforia que a bioquímica fornecia generosamente, agora só é conquistada com muito esforço, método e determinação. Eram outros tempos. Mas não eram outros tempos apenas para o meu relógio biológico. Eram outros tempos também para toda a sociedade. Para a gente se divertir, bastava descer para debaixo do bloco, reunir a meninada e alguém levar uma bola, ou nem isso. Brincar de esconde-esconde, por exemplo, requeria apenas nossa presença – ou a dissimulada ausência. Com o passar dos anos, o capitalismo foi transformando o lazer em consumo. Brincar passou a ser cada vez mais caro.
Os encontros diários com os amigos ficaram menos frequentes e passaram a ser em parte substituídos pela internet. As recreações de rua deram lugar aos jogos eletrônicos, cada dia mais sofisticados e dispendiosos. A obsolescência programada dos jogos infantis chega a ser assustadora. Uma plataforma sucede a outra e os jogos, às dezenas, vão sendo descartados para dar lugar ao novo – palavra mágica do capitalismo. Junte a isso o aumento da criminalidade nas grandes cidades que leva os pais a não permitir que as crianças passem o dia brincando na rua. As muitas notícias de crimes e o aumento do consumo de drogas fez com que os meninos e meninas que coloriam e animavam as quadras de Brasília passassem a ficar mais tempo nas casas e apartamentos. Assim, a mão calçou a luva. Os fabricantes vendem mais e os pais se tranquilizam sabendo que, enquanto trabalham, suas crianças estão a salvo, em casa. Mas isso custa caro.
Não é custo, alguns poderiam objetar, é investimento. Sem dúvida, os jogos eletrônicos desenvolvem habilidades essenciais ao cidadão do futuro. Saber lidar com a tecnologia é fundamental para quem não pretende passar os próximos cinquenta anos em uma oca isolada na floresta amazônica e as crianças precisam estar preparadas para um mundo cada dia mais eletrônico. Acontece que, como em todo movimento social, às vezes, as coisas fogem do controle e extrapolam o desejável. E não é apenas de jogos que estou falando. Incluo aqui os shoppings, templos do consumo, que transformaram a diversão em produto a ser comprado. Nada contra o cinema, a lanchonete. O problema é quando as pessoas já não conseguem mais encontrar outra alternativa de lazer que não seja comprada. Aquela capacidade natural de rir e de se divertir ficou obsoleta. Estar com o outro exige sempre a intermediação de alguma mercadoria. O carinho é vendido na forma de presentes, lanches e ingressos e a inclusão, o pertencimento e o valor social estão relacionados à capacidade de ver primeiro o filme da moda, de usar as roupas da estação e de frequentar os restaurantes badalados.
Trabalhei alguns anos como terapeuta familiar. Convivi com famílias egressas de divórcio em que a condição financeira ficou abalada pela necessidade de sustentar duas casas, ao invés de uma. Notava a grande dificuldade de pais, crianças e adolescentes em encontrar diversão, agora que não dispunham mais dos mesmos recursos. É como se tivessem sido jogadas em um mundo estranho, sem mapa, sem GPS. Como encontrar os amigos sem ir ao shopping? Como passear com os filhos sem recorrer à indústria do fastfood? Mas, aos poucos, as pessoas iam descobrindo novas alternativas e percebendo que eram donas de suas vidas, de seus relacionamentos, de seu prazer. Muitos perceberam que os verdadeiros amigos são aqueles que gostam de estar conosco, simplesmente.
Não podemos permitir que nos convençam que a felicidade vem com código de barras e que dependemos deles – sejam eles quem for – para vivermos momentos de prazer, tranquilidade e confraternização.

* Sandra Fernandes – jornalista e psicóloga


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