No DF, voto corporativo fragiliza a representação política da sociedade

25 03 2011

É notório que a cada nova eleição estamos acompanhando uma queda na qualidade da nossa (DF) representação política. Percebe-se uma espécie de nivelamento por baixo e ao contrário do que se poderia imaginar, o exercício do voto, pelo eleitor, não tem sido suficiente para arrancar a Câmara Legislativa da lama, do marasmo, do caos, do fisiologismo e de sua identificação como uma das mazelas e razões de muitos dos escândalos que nos são jogados a cada dia no rosto.
Tenho para mim que algumas razões podem nos dar uma certa luz para esta situação. Vou colocando-as, não na ordem de importância, mas segundo a formulação mental que vigora no momento da escrita.

1 – Prestação de contas

Tenho para mim que se trata da maior palhaçada. Faço e acompanho eleições para distrital desde 1990 e acho ridículo ler que deputado X ou Y gastou R$ 120 mil. Para aceitar tal disparate, a pessoa deve desconhecer os custos gráficos, o custo de combustível, o quanto se roda pelo DF em campanha, o custo de manutenção de cada comitê, as ajudas para cobrir custos de cafés, almoços e jantas.
Enquanto a prestação de contas for uma obra de ficção, será difícil acreditar em alguém que já começa mentindo – porque mesmo quem “dá” alguma coisa, depois contabiliza este valor e fará a cobrança devida pedindo no mínimo favores 100 vezes maiores.

2 – O malefício do voto corporativo

Digo, sem medo dos patrulhamentos e das cobranças: a predominância de distritais eleitos a partir de guetos corporativos é uma das razões da queda da qualidade da representação política. Claro está que alguém eleito pela Polícia Civil, por exemplo, estará comprometido a lutar pela preservação dos privilégios e regalias da corporação. Ao contrário do que se poderia pensar, seu compromisso jamais será com a melhoria da qualidade dos serviços na área de segurança pública, mas sim se limitará a defender os interesses ‘próprios’. O mesmo vale para a PM – e isto pode ser visto na quantidade de policiais civis, militares e bombeiros que estão fora de suas atividades ‘fim’.
A Câmara Legislativa deixou de ter o compromisso com o conjunto da sociedade e foi sendo repartida e fragmentada pelas corporações. Ninguém tem coragem de votar contra estas verdadeiras máquinas de chantagear e que só estão preocupadas em preservar os seus interesses, em aumentar as suas regalias.
Este mesmo entendimento tenho em relação ao chamado voto dos religiosos – quer católicos ou pentecostais. Porque a gente observa que existe uma tentativa de fazer do mandato uma ferramenta de barganha, para ampliar espaços.
Tenho para mim que o voto corporativo é a razão principal para a piora da qualidade de nossa representação política refletida na composição da Câmara Legislativa.

3 – Deputado foi eleito para ser deputado

Sou contra esta vergonha que é alguém ser eleito deputado distrital (o mesmo vale para vereador, onde houver; deputados estadual ou federal e também Senador) e ‘sair’ para um cargo no Executivo. Claro que isto jamais vai acontecer, mas eu defendo que a pessoa para aceitar a este convite para ser secretário ou administrador (no caso aqui do DF e de forma similar nos municípios, estados e também em nível federal), ele deveria renunciar ao mandato. Seria uma condição básica e de valorização do voto, de respeito ao eleitor.

4 – Quem é mais corrupto: eleitor ou político?

Esta dúvida me acompanha faz muito tempo… Há muitos anos vivencio a rotina de campanhas – aqui no DF desde 1990. A primeira delas deve ter sido em 1974 – quando Paulo Brossard, então no MDB, venceu Nestor Jost, da Arena, na disputa para o Senado. Apenas para ilustrar: Jost é da minha cidade, Candelária, ainda assim estive com o pessoal que ficou ao lado de Brossard – que ganhou inclusive no quintal do queridinho da ditadura. Pois bem… Tenho que confessar: a obrigatoriedade do voto é a ferramenta que o eleitor tem – e sabe usar muito bem – para barganhar o seu voto, para trocá-lo por algo concreto ou pelo compromisso futuro de lote, emprego ou intervenção política na defesa de algum interesse seu.
Não estou entre aqueles que pensam e defendem o eleitor como alguém ‘santo’.
Quem duvidar, fale com algum candidato e ouvirá relatos aterradores. O eleitor, obrigado a votar, tenta levar algum tipo de vantagem.
Qual o percentual do eleitor corrupto e que tenta levar vantagem? Eu creio que cada local tenha sua peculiaridade, mas aqui no DF, na minha opinião, deva ser da ordem de 70%. As pessoas até se justificam com argumentos pífios como: eu peço porque sei que depois ele vai roubar. Mas.. calma aí… a pessoa assume que vota num ladrão e que apenas está tentando levar alguma vantagem?
É preciso punir da mesma forma tanto o eleitor corrupto quanto o político safado. Político e política safados, para que fique bem claro que não estou me referindo a A ou B.

Apontamentos preliminares

Certamente este texto será adensado e terá adendos, complementos e remendos, na medida em que pretendo me debruçar mais vezes sobre a encruzilhada política na qual nos encontramos aqui no DF.

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One response

25 03 2011
Jesus Divino Barbosa de Souza

Alfredo,

Este fenômeno não é só de Brasília.

Uma coisa que precisava acontecer era esta vergonha das reeleição perpétuas dos parlamentares.

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