Lula x Dilma – o 3º turno que eles não verão acontecer

10 04 2011

Já faz tempo que existem vários ‘brasis’ em permanente conflito. Um conflito artificial, alimentado por grupos que excluídos do núcleo central do poder, continuam achando que ele pertence exclusivamente a eles. Por não quererem entender que o poder começa a ser de outros também eles tentam criar uma situação de confronto. De conflito. De inconformidade.
Já disse e volto a repetir: o PT, sob o comando de Lula, transformou-se no partido social democrata, ocupando o espaço que as elites tinham reservado para os tucanos. Acontece que o PSDB, por ausência de penetração nos diversos segmentos e movimentos sociais (e até pela dificuldade em conviver com eles, optando, pelo contrário, em sua criminalização e demonização) acabou tendo que se aliar com o que de mais podre existe na política nacional: o fisiologismo corrente do PFL/DEM, o oportunismo cartorial do PPS – além do adesismo renitente de outras siglas como PTB, PMDB, PP.
Ao migrar para o centro, o PT obrigatoriamente deslocou este grupo tucano para a extrema-direita – exemplo disso foi a campanha de Serra em 2010, resgatando temas seiscentistas e que revelam a miopia em relação ao que acontece hoje em nosso País. Com a consolidação do papel social democrata, claro que o PT acabou atraindo estas siglas voláteis e sem sentido ideológico a não ser o de buscar levar vantagens (PTB, PP, PMDB, PR). Como os petistas vão administrar esta aliança e como eventualmente irão se livrar de algumas companhias depende principalmente de como irão se comportar, inclusive eleitoralmente, as siglas mais históricas e que fizeram parte do primeiro consórcio petista.
Para manter o PT com um papel social democrata de centro esquerda – será que existe tal classificação? – é fundamental que a correlação de forças demonstre que o PSB não será tomado pela sedução de se fundir com o serrista PSD de Kassab, Índio e Kátia Abreu; que o PCdoB tenha como se revitalizar e também se livrar de algumas figuras que trazem o Partido para o noticiário apenas quando geram problemas; que o PDT possa deixar de ser um ente em vias de extinção e se fortaleça em torno de novas lideranças que abandonem a sedução do fisiologismo.

O sonho do 3º turno

Nestes 100 primeiros dias do governo Dilma este quadro dos ‘brasis’ em conflito se manteve inalterado – como foi durante os oito anos de Lula. Existe no entanto uma diferença, mais demoníaca que real: as elites tentam mostrar Dilma como a anti-Lula, tentando cooptá-la, em lugar de compreender, entender e aceitar que o Governo Dilma é a continuidade do Governo Lula – mesmo não sendo o mesmo e nem querendo ser igual. Até porque o Brasil que Dilma herdou não é nem parecido com o Brasil que Lula assumiu em janeiro de 2003.
Se o 1º turno foi Dilma contra todos; se o 2º turno foi Dilma contra o obscurantismo, o 3º turno sonhado e idealizado é Dilma contra Lula. É tão perceptível este cenário e ele passa pela forma como a extrema-direita busca diferenças e antagonismos entre os dois presidentes. O que eles queriam, que fosse igual aos anos de chumbo onde tínhamos um ditador de plantão, seguindo pela mesma cartilha, sendo manipulados por quem realmente detinha o poder?
Esmiuçar discursos, dizer que Dilma fala mais em mulheres do que Lula falava; que ela fala mais em Brasil do que Lula falava; que ela fala mais em miséria do que Lula falava… é muita babaquice – me desculpem pela expressão. Dilma não é Lula, mas os dois têm o mesmo projeto e assumiram o mesmo desafio de levar justiça social para milhões de brasileiros que sempre viveram às margens de qualquer possibilidade de inserção social. Podem ser diferentes as palavras, podem ser diferentes os métodos – mas o objetivo é exatamente igual.
Enquanto as nossas elites não entenderem isso, elas continuarão dando com os burros na água na espera de um 3º turno, que, na visão e sonho deles, significaria o efetivo distanciamento de Lula e Dilma. Sonhem…


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4 responses

10 04 2011
Marc Arnoldi

As diferenças entre os Governos Lula e Dilma ultrapassam um pouco os “discursos esmuiçados”. Além das normais diferenças de personalidades, os primeiros movimentos de Dilma em dois setores importantes são claramente divergentes dos do Governo Lula. Para não dizer opostos.
A política internacional do Brasil mudou. Além dos dois símbolos que foram a visita de Obama e a curva de 180o graus na posição em relação ao Irã, o trabalho cotidiano no Itamaraty e nas Embaixadas foi focado em mais resultados econômicos e menos reuniões políticas. A visita de Dilma à China será um bom termômetro desta postura.
Mas é sobretudo na situação econômica interna que o Governo Dilma pegou seu predecessor literalmente no contra-pé. Anúncio de cortes no Orçamento, vontade de redução do defícit público, tentativa de combate à inflação herdada, o macro-econômico versão Dilma é até agora o contrário do estampado Lula. E não duvido que se a atual Presidente(a) da República não fosse companheira do precedente, já teria proferido o chavão da “herança maldita”, termo preferido dos governantes que o tomam como pretexto para começar a dizer à população talvez não dará para cumprir as lindas promessas de campanha.

Mas o ponto mais importante, a meu ver, é o reconhecimento, cada vez mais inegável, que o PT pode ser agora claramente identificado como social-democrata, ou de centro-esquerda. A figura emblemática, por seu carisma e sua história, de Lula, impedia uma leitura desapaixonada dos atos do Governo do PT. Uma vez isso posto, será de fato muito interessante ver a reação de PSDBistas incomodados de serem empurrados para a direita (e digo direita. Não há, salvo raras exceções pessoais, extrema-direita no Brasil pós-Enéas). Mas é verdade também que os quadros PSDB de hoje não se comparam ao de sua criação.

Será também interessante ver a reação da esquerda do PT. Há grupos que têm cada vez mais dificuldade em engolir os juros altos, os lucros dos bancos, a alta dos preços dos alimentos ou a instrumentalização das empresas nacionais. Agora, com a vontade governamental de contenção do crédito (“emanação da soberania popular”, segundo os pequenos e grandes livros vermelhos), as contorsões discursivas serão ainda maiores. Cuidado com as dores de coluna.

10 04 2011
passelivreonline

Pelo contrário, Marc.
A coluna sempre teve cores.
Ruim e perverso é a hipocrisia de quem acha que pode viver sem cores. Ainda que seja plenamente colorido.
Esta coluna sempre teve cor e lado. Como o seu titular.

11 04 2011
Marc Arnoldi

Sobre a “cor de sua coluna”, não há dúvida, e você também faz muito bem de reinvendicá-la. Diga não aos mascarados :)

Mas minha colocação era sobre “dores de coluna”, não sua, mas sim daqueles que são hoje obrigados a se contorsionar para adequar os atos da Presidente(a) Dilma, particularmente nos dois setores citados, ao discurso tradicional de setores de esquerda do PT.

11 04 2011
passelivreonline

Se você observar que no Passe Livre da última semana relatei a inconformidade da deputada e secretária Arlete Sampaio com o fato do Jornal estar cobrando ações mais pontuais do governador e de sua equipe de governo, então você, que é dos raros que unem paixão com inteligência, haverá de concordar que mesmo o Passe Livre sempre tendo tidop lado, mantém-se igualmente crítico.
Quanto às eventuais dores, cabe lembrar que hoje o PT é mais uma confraria de tendências do que um partido dentro da concepção leninista – que é o que se espera de um partido de origem na esquerda. O que euacho muito estranho são partidos que hoje tentam ocupar o campo da esquerda, que está vago, mas em lugar de construírem bandeiras, preferem assumir uma simplista: tornam-se apenas anti-petistas. Neste aspecto, se observamos bem no seu anti-petismo, pouco há para dizer de divergente entre Psol, Pstu e o PPs, Psdb, e o Demo/Psd.
Não vejo esta divergência asism tão cabal entre Lula e Dilma no quesito de relações externas, tendo em vista que no que diz respeito aos direitos humanos não houve nenhuma votação (posso estar enganado) durante o Governo Lula na Onu. O que o Brasil sempre se posicionou, e não há nenhuma manifestação da Dilma em sentido contrário,, é em defesa do projeto do Irã de enriquecimento de urânio e o uso pacífico da energia nuclear.
Eu acho engraçado como a direita tem a necessidade de ver Dilma diferented e Lula, como se alguém de sã consciência em algum momento os quis iguais. A visita de Obama, infrutífera e que serviu apenas para demonstrações de babaquice da mídia nacional, já vinha sendo negociada e agendada desde o governo Lula.
Claro que Dilma vai romper com muitos dos parâsmetros de Lula, até por ter um outro modo de fazer política.
Eu, particularmente, diria que no essencial, Dilma segue um padrão de governo que foi o padrão de governo do PT.
Marc, é preciso entender também que hoje vivemos uma realidade bem distinta daquela de 2003, quando Lula assumiu o poder.

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