2º turno: Aos que vierem depois de nós…

31 10 2010

Eu sei: todos os institutos de pesquisa apontam para a vitória de Dilma e de Agnelo. Vi, revi todos eles muitas vezes. Tal como aquele que recebe uma notícia na qual custa acreditar. lho. Meu coração bate descompassado. Acelerado.
Daqui um pouco, teremos os resultados de boca de urna.
Aqui no DF pipocam as denúncias dos malfeitos da turma do Roriz, do Estevão. A bandidagem está agindo. Para eles, a vontade do povo é apenas um detalhe. Há denúncia de compra de voto. Há denúncias de mesários votando em lugar dos ausentes.
Conversei com o povo lá do Goiás. Acham que dá Dilma e Perillo. Eu me pergunto: como pode alguém votar em Dilma e Perillo? Mas esta também é uma realidade aqui no DF, onde a votação em Agnelo será bem maior do que em Dilma. Dizem que a coordenação da campanha da Dilma não quis trabalhar em conjunto. É a velha disputa de vaidades. De veleidades. Quando haverá enfim a travessia da aprendizagem?
Comprei Giraffas – logo eu que gosto de cozinhar aos domingos.
Estou fazendo o Jornal Passe Livre – edição especial deste domingo. O povo da gráfica perguntando a que horas o material estará pronto.
Peguei um poema de Brecht, na tradução do Manuel Bandeira:

Aos que vierem depois de nós

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
===
Acompanho as conversas pelo twitter.
Nada acalma o coração. Voto às 16h – velho ritual que repito a cada nova eleição. Por voltas desta vida, nesta hora já tenho a informação da chamada boca de urna. Conversei com um vizinho rorizista. Ele diz: não pensem vocês que está ganha, nós sabemos como virar o jogo de última hora.
É um misto de ameaça e confissão: este povo adora uma mutreta.
Vamos lá. O Brasil merece Dilma. O DF precisa de Agnelo.





2º turno: a baixaria já começou…

4 10 2010

Muitas e muitas vezes já publiquei no Jornal Passe Livre que o arsenal de baixarias pornto para ser usado no 2º turno será incomensuravelmente maior do que foi até aqui.
Agora, 21h28, quando temos cerca de 95.5% dos votos apurados e Dilma lidera com 46,34% e ao acessar a caixa de mensagens do meu e-mail, lá estavam eles – convocando a ‘militância silenciosa em favor da vida’ a derrotar as forças do diabo também no 2º turno.
Este será um padrão recorrente no material que vai circular no 2º turno.





DF: Desafios para o 2º turno

4 10 2010

Antes de mais nada, é preciso reconhecer a força de Roriz – neste patamar de 31,5% que seria a mesma votação se fosse com ele ou a laranja dele. Não foi Roriz quem levou a eleição para o 2º turno, mas alguns equívocos mortais do PT que acabaram tonificando a campanha de Toninho do Psol.
Entre os equívocos, o maior deles é a fragilidade de Agnelo para os debates, para se explicar, para transmitir informações. Passou o tempo todo sendo atacado por Toninho do Psol e jamais conseguiu ter uma resposta convincente para o leque de alianças que fez para dar sustentação à sua candidatura.
Falta para Agnelo a incisão nas respostas. A convicção.
Terá de solucionar estes equívocos e quem sabe mudar a equipe de TV – que deve ter feito os piores programas do País. Não se sabe de onde saiu uma equipe tão ruim. Tenho para mim que os programas de Agnelo eram os piores em nível nacional.
Em lugar de propostas, gracinhas e ataques contra Roriz – algo que pdoe agradar meia dúzia de militantes, mas não agrega nada em termos eleitorais.
Manter a atual equipe de TV é a garantia de derrota no 2º turno. O marqueteiro chefe da campanha tem a capacidade de ‘gerenciar’ uma campanha similar a de um elefante cuiidando de uma loja de cristais.
Ao não ser eleito em 1º turno, talvez alguns petistas sejam tocados um pouco mais pela humildade. Saiam do olimpo e venham trafegar no meio do povo. Aceitem conversar sobre suas verdades com quem vive na chapada.
Desde o começo foi apontado que a arrogância de alguns petistas, a falta de comprometimento de candidatos a distrital extremamente fisiológicos que estavam ‘na base’ de Agnelo e a falta de firmeza de Agnelo poderiam levar para o 2º turno.
Agora, que o 2º mturno é uma realidade, talvez estes deuses com suas verdades aceitem aprender um pouco com os humanos…





A insanidade da Folha

3 10 2010

Tenho para mim que as eleições deste ano entram para a história como o divisor de águas acerca do papel que os meios de comunicação assumem em toda e qualquer campanha. Não que em 2010 tenha sido diferente do que foi nos anteriores. A postura golpista dos meios de comunicação está presente desde antes do suicídio de Vargas.
A diferença é que este ano trouxe um novo protagonista para o ringue: uma blogosfera onde jornalistas mais bem preparados do que os que estavam escrevendo nos jornais fez, pela primeira vez, um contraponto à manipulação.
Não houve nenhuma mentira montada contra Dilma e veiculada pela mídia tradicional, por exemplo, que tenha resistido mais de seis horas de desconstrução pela blogosfera – sendo que a mídia tradicional, muitas vezes, demorou dias para assumir o erro (em alguns casos, a despeito de todas as provas e evidências, manteve-se apegada a sua versão e contribuindo, por teimosia, para o seu próprio descrédito).
O protagonismo propositivo da blogosfera estabeleceu o antes inexistente contraditório – algo assim primário, elementar, mas que pela primeira vez fez valer a diferença. E não se diga, como Serra e alguns sabujos, que o ‘nosso’ papel tenha sido o de fazer o jogo sujo. Pelo contrário: coube a este segmento fazer a limpeza da sujeira colocada na mídia e na rede.
Ao exteriotipar os adversários como ‘sujos’, Serra, a mídia e a elite por seus porta-vozes, acabou atraindo a atenção de muitos para as baixarias veiculadas contra Dilma, a montagem grotesca de fotos, as inverdades e as insanidades – que iam repercutindo em antas como Merval, Eliane, Reinaldo, Diogo. Na medida em que iam sendo desmascarados e condenados, eles próprios tornaram-se vítimas das próprias leviandades.
Assim, um fugiu e os outros foram ficando cada qual do seu verdadeiro tamanho intelectual, profissional e de subserviência profissional. Ou alguém ainda tem estômago para escutar Miriam Leitão? Ou alguém vai me dizer que não ficou arranhada a credibilidade do JN pela agressividade com que o Bonner, esta coisinha rica e fofa, atacou Dilma ao ser entrevistada? Ou não virou hit o pedido de desculpas ao ter que cortar Serra? Ou alguém haverá de esquecer que em face da repercussão negativa da entrevista até a Globo teve que soltar nota dizendo-se neutra?
Não faltam exemplos. Depois das eleições – mesmo que ocorra o improvável 2º turno – jornais como O Globo, Zero Hora (que é um verdadeiro câncer a corroer o RS e só quero ver se o Tarso Genro vai ter coragem de governar sem se ajoelhar para o povo da RBS), Folha de São Paulo e o Estadão terão de se reinventar ou serão cada vez mais jornais identificados apenas com um segmento derrotado da sociedade). O mesmo vale para revistas como a Veja – a despeito de algumas derrapadas, percebe-se que a famiglia Marinho parece que tirou as mãos do Kammel da linha editorial da Época. A TV terá de conviver cada vez mais com outra realidade: ela é a imagem da decadência.
Goste-se ou não de Edir Macedo enquanto empresário – permito-me como Luterano não questionar a suposta teologia da igreja por ele criada – mas a verdade é que ele partiu ativamente para o confronto. Não teve medo. Não aceitou a chantagem global. Correu o risco e está enfrentando a Globo e seus tentáculos com a mesma estratégia de sempre: sem recuar.
Mas… nada superou uma declaração de impotência que a Folha de São Paulo estampou na capa do portal Folha Online:

É o reconhecimento da impotência: Conheça os cargos em disputa; aprenda a votar branco ou nulo.