A política como um negócio meramente familiar

27 03 2011

Não sei se é pelo fato de eu estar entre aqueles milhões de brasileiros que precisam trabalhar – e muito! – para garantir o meu sustento e o de minha família; não sei se é pelo fato de eu, a exemplo de milhões de brasileiros, não compreender a mágica do enriquecimento de algumas pessoas; não sei se tem algo a ver com minha dificuldade com a matemática desde os tempos que tive aula com a profª Domitila Rodrigues, lá no Ginásio Agrícola Gastão Bragatti Lepage; não sei se ficou faltando algo do período de confirmação com o Pastor Elmer Nicodemus Flor ou de minhas conversas com o também Pasor Aragão… mas a verdade é que não compreendo a cínica mágica de pessoas que sobrevivem, enriquecem, engordam patrimônio e ainda têm lucros sem jamais terem trabalhado.
Uma reportagem hoje, domingo dia 27, veiculada no Correio Braziliense pode ajudar um pouco a revelar esta mágica. Mas ela se refere apenas ao universo de uma família e sua ramificação no DF. Vou colhendo tantos exemplos de pessoas que nunca trabalharam e continuam bancando campanhas milionárias. Possoaqui citar uns 30 nomes, como os de Pedro Simon, Esperidião Amin, Álvaro Dias, José Serra, César Maia e seu filho Rodrigo, Aécio Neves, Marconi Perillo, ACM Neto, José Sarney e seus filhos Roseana e Zéquinha.
É importante que a gente se dê conta e se revolte contra uma perversa realidade: a nossa elite dirigente só briga quando está fora do poder por não ter acesso a benesses. Vejam o caso do velho e nada saudoso ACM com a OAS, corretamente de Obras para os Amigos do Sogro.
Por esta razão, sou totalmente contra toda a reeleição.
Na minha forma de entender o mundo, a pessoa deveria disputar um mando e ao fim do seu exercício deveria ficar igual período em alguma atividade produtiva – comprovando a manutenção do padrão de renda. Só depois ele poderia voltar a se candidatar outra vez. Já disse isso e vou repetir: vereador, deputado estadual ou distrital, deputado federal ou senador que saísse do seu cargo durante o mandato teria de renunciar.
A reportagem do Correio Braziliense deveria servir para uma demorada reflexão sobre estas pessoas que fazem da política a profissão e mesmo com o baixo salário, enriquecem, adquirem patrimônio e vivem impunes.

Organograma da Câmara Legislativa revela uma teia de apadrinhados políticos
Lilian Tahan

Ricardo Taffner

Publicação: 27/03/2011 08:16 Atualização:

Antônio Abrão Hizim é advogado, faz bico como vendedor de couro, mas o que tem lhe ocupado a maior parte do tempo desde janeiro é a rotina na Câmara Legislativa. Irmão da distrital Celina Leão (PMN), ele cuida de assuntos administrativos no gabinete da parlamentar, que mal inaugurou o mandato e já entrou na mira do Ministério Público e da Polícia Civil por suposto envolvimento em desvio de dinheiro em Samambaia e suspeita de conivência com a manutenção de servidores fantasmas na época em que era chefe de gabinete de Jaqueline Roriz (PMN).

Como outro funcionário qualquer, Abrão Hizim dá expediente na Câmara Legislativa. Sempre com uma pastinha debaixo do braço, circula com desenvoltura pelos gabinetes dos colegas de Celina. Foi Abrãozinho, como é tratado carinhosamente pela irmã, quem esteve à frente, por exemplo, da negociação de cargos e salários dos funcionários que compõem a equipe da deputada. Apesar da função que exerce, esse não é um caso clássico de nepotismo. Simplesmente porque Abrão não está formalmente contratado pela Câmara. Faz um “trabalho informal” e recebe “uma ajudinha financeira” da irmã. Abrão é casado com Camila Calazâncio, uma das enteadas de Manoel Neto, que era empregada do gabinete de Jaqueline Roriz entre 2007 e 2010. “Sou representante de couro aqui em Brasília, mas como meu trabalho é muito por telefone, acaba me sobrando tempo”, disse Abrão ao Correio. A deputada contou que recompensa a dedicação do irmão. “Abrãozinho me ajuda muito desde a campanha. Sempre que posso, pago umas contas para ele”, disse Celina.

Irmãos

A situação de Abrão é apenas uma das esquisitices do organograma montado pelos distritais com os cargos comissionados. Outra excentricidade: trabalham no gabinete de Celina três irmãos. Dois deles, Sandro de Moraes Vieira e Sílvio de Moraes Vieira, estão lotados lá oficialmente. O terceiro, Alcidino Júnior, tem rotina parecida com a de Abrão. Cumpre tarefas na Câmara em nome de Celina, mas não está oficialmente no gabinete. Na última terça-feira, Maria Balbina de Moraes Vieira foi nomeada com CL 14 de R$ 8,6 mil para a secretaria executiva da Comissão de Ética e Direitos Humanos da Câmara. Maria é mãe de Sandro, Sílvio e Alcidino e foi indicada para o cargo por Celina Leão, que é a presidente da Comissão. Antes, a família Balbino, como é conhecida na Câmara, era vinculada ao gabinete de Eurides Brito, cassada no ano passado por ter embolsado o dinheiro de Durval Barbosa.

Juninho, o Alcidino, não pode ter vínculo formal na Câmara, pois estaria em estágio probatório de três anos como técnico penitenciário. Conseguiu licença do emprego na Secretaria de Justiça sob o argumento de exercer atividades para o sindicato que representa a categoria. Porém é visto no dia a dia da Câmara, tendo acesso, inclusive, ao plenário, que é restrito a servidores da Casa ou do GDF com atuação na área parlamentar.

Jaqueline Roriz foi eleita para a Câmara dos Deputados, mas deixou herança no Legislativo local. Acomodou uma de suas afilhadas no gabinete da irmã Liliane Roriz. Angélica Veras dos Anjos era assessora de plenário de Jaqueline. É requisitada do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) para atuar no Poder Legislativo. Entre os colegas, é vista com desconfiança. Há quem acredite que ela ainda mantém vínculos políticos com Manoel Neto, marido de Jaqueline e desafeto de Liliane, de quem é cunhado. Outra ex-funcionária de Jaqueline também foi mantida na Casa. Fabíola Pereira dos Santos ficou alojada no gabinete de Celina Leão por 11 dias e depois foi transferida para o bloco Avanço Democrático, do qual a deputada faz parte.

Engano

Jorcelino Teixeira dos Santos foi nomeado em 3 de fevereiro para o CL 3 no gabinete do distrital Raad Massouh (DEM). Ficou pouco tempo, apenas cinco dias, com um fim de semana no meio, mas o suficiente para causar estranheza. Em dezembro do ano passado, descobriu-se que Jorcelino era caseiro de Manoel Neto, mas recebia salário de R$ 2,8 mil. Ele é casado com Sandra Ribeiro Soares, que era lotada no gabinete de Jaqueline com salário de R$ 12 mil, mas trabalharia como empregada doméstica da então distrital. Raad Massouh disse que a nomeação de Jorcelino foi um erro. “Trata-se de um equívoco da minha chefe de gabinete, Ana Maria, reconhecido por ela própria. Nunca vi essa pessoa, nem sabia da existência dela. Não mandei nomear nem exonerar. Penso que alguém tenha tentado plantar esse funcionário em meu gabinete. Mas não colou, pois o erro foi corrigido de um dia para o outro.”

A teia de apadrinhados é comprida e complexa. Leny Eiró Dias de Oliveira pertencia ao gabinete de Jaqueline Roriz e foi nomeada para trabalhar com Celina Leão. O marido de Leny, José Flávio de Oliveira, é o chefe de gabinete de Liliane Roriz. Pessoa da confiança de Joaquim Roriz, ele trabalhou como secretário de Assuntos Parlamentares do ex-governador, de quem foi tesoureiro na campanha.

Giselle Ferreira de Oliveira trabalhou com Jaqueline Roriz e hoje está com Washington Mesquita. Ela é filha de Vera Lúcia Ferreira, que é apontada por ex-colegas de ter agido como laranja no gabinete de Jaqueline. O caso está sob investigação. Poliana Oliveira Melo atua como secretária parlamentar no Bloco Avanço Democrático na cota de Olair Francisco. Na legislatura passada, Poliana foi uma das principais servidoras do gabinete de Jaqueline, tendo, inclusive, chefiado o gabinete da então distrital. A permanência dela na Casa, no entanto, não pode ser atribuída a Jaqueline. Poliana se desentendeu com Manoel Neto.

Olair ainda ficou com o espólio de Júnior Brunelli, que assim como Eurides Brito, saiu do cenário político por ter se envolvido no escândalo da Caixa de Pandora. Getúlio Soares Novaes Frota foi chefe de gabinete de Brunelli e agora trabalha com Olair. Esses são alguns dos casos em meio a muitos semelhantes. Sinal de que os deputados até passam, mas os laços continuam.





Pajada da Modernidade

27 03 2011

Não sou, nunca fui e nem me atreveria pensar-me ou dizer-me ‘payador’ ou pajador – que é uma expressão mais compreensível e palatável lá pras bandas do sul, mas que é, a grosso modo, o versejador de improviso. Faço versos, que são minhas vozes dentro de mim, vozes que me transcendem e falam a outros o que é a vida que trago, terrunha ligação de onde vim.
Estes versos da ‘Payada da Modernidade’ são uma espécie de desabafo diante de tantas coisas que vamos vivenciando, que vamos tolerando e que servem apenas para roubar, um pouco a cada dia, nossa condição humana e nossa necessidade de acreditar nos sonhos e em nossa capacidade de transformá-los em realidade.
Espero que gostem!

Payada da modernidade
Alfredo Bessow

Eu pergunto aos senhores
de que valem arte e ciência
se os inventos dos doutores
não melhoram a existência?
Escuto tantas maravilhas
anúncios de vida centenária
e nas ruas vaga maltrapilha
a morte, parceira sanguinária

Mas de que adianta tudo isso
se hoje a vida perdeu valor,
pois o único compromisso
é o lucro do financiador?
Aqui grassam ancestrais epidemias,
tragédias, dores e calamidades
enquanto lá nas academias
se discute o além, a eternidade

Não me agrada o modismo
de santificar o dinheiro,
há tanto conformismo
que até fico triste, cabreiro
E os homens vivem assim
sem sonhos e nem ideais,
se arrastam rumo a um fim
reles seres, feito vegetais

Chuleio ao redor, desatino!
Nenhuma referência sobrou
inté os sonhos de menino
a ganância do lucro deturpou
Nos dias de hoje, tudo se negocia:
a fé, a honra e a lealdade
o ‘valor’ é reles ‘porcaria’
no culto à modernidade

Agora só vale o negócio
feito bodega de horrores
e um voraz e oculto sócio
manipulando os valores
Tudo se vende nesta ‘casa’:
fé, medalhas e lascas da cruz
quem tem vergonha ‘vaza’
pois fariseus nem poupam Jesus

Fico acabrunhado, entristecido,
faltam palavras pra expressar:
o mundo perdeu o sentido
e o homem quer se matar
Não vivo o hoje no passado,
mas o presente é duro de roer
fui em cerne falquejado
pra nunca me corromper

Por isso…
Minha tristeza o verso permeia
e se esvai a própria esperança
só o coração teimoso esperneia
diante de tanto caos e matança
Me despeço perguntando
do mesmo jeito que comecei
pra onde estão nos levando
os donos de tudo e da Lei?





Obama e a sabujice da mídia

22 03 2011

O artigo abaixo está na edição 402 do Correio do Metrô.

Obama e a sabujice da mídia

Alfredo Bessow

A recente visita do Barack Obama e sua “entourage”, parafernália que foi da água de beber ao prosaico papel higiênico – em 10 aviões que trouxeram, entre outras coisas, armas, três limusines, helicópteros e toda sorte de parentes, serviu para mostrar uma vez mais, o baixo nível da mídia nacional.
Não houve cobertura jornalística do evento, mas sim uma babação enojante, uma bajulação subserviente e uma devoção típica de dementes e fãs histéricos. Em lugar de buscar informação, os nossos bravos ‘repórteres’ se esmeraram em prestar atenção no vestido da Dilma para saber se estava de acordo com a ocasião, falaram dos cabelos brancos do Obama.
Ele deve ainda agora estar sonhando em ter lá nos EUA uma mídia assim capacha e bajuladora – porque lá, o mínimo que os meios de comunicação disseram foi que Obama e sua família fizeram um exótico tour turístico por um país aliado. Isto ficou patente quando a própria 1ª dama de lá disse que tinha trazido as filhas porque ela costuma levá-las junto para países que, em outras circunstâncias, jamais visitariam.
A nossa mídia revelou todo seu fascínio, portando-se como tietes que esperam no quintal a visita do coronel. Tem horas que sinto vergonha, noutras a minha sensação é de absoluto nojo pela forma como os meios de comunicação brasileiros são subservientes. Eles moram no Brasil, mas vivem 24 horas por dia sonhando e se portando como sub-ianques. Usam toda parafernália descartável, são beócios que se comprazem em babar diante de qualquer coisa vindo de lá.
Hoje, o Brasil é o retrato acabado do colonialismo. E isto é uma nefasta conquista da mídia, que bestializou o brasileiro, que entupiu o nosso povo com o lixo cultural onde gagás da vida é que viraram símbolo e parâmetros de referência em termos de comportamento. Vale a promiscuidade, a banalização da sexualidade, o desrespeito ao perfil cultural do brasileiro.
Eu fico pensando o quanto nós estamos longe do que é uma efetiva referência de poder. A mídia, porque Obama foi um evento apenas midiático, se portou como esperava o império: de cócoras, disposta a bajular e a rir de tudo. Nenhum questionamento pela armação do golpe de 1º de abril de 64; nenhuma palavra sobre o treinamento de militares brasileiros em técnicas de tortura; nenhum pio sobre o dinheiro de ladrões brasileiros investidos em bancos e fundos nos EUA…
A nossa valorosa mídia, de tão enojantemente puxa-saco e babona, não teve nem mesmo coragem de dizer que houve manifestações contrárias e que redundaram em prisões de militantes de alguns partidos.
Nestas horas, sinto inveja da altivez de outros povos. O Obama que saiu bajulado daqui, foi vaiado e duramente cobrado no Chile pelo apoio que os EUA deram ao golpe que matou Allende e instalou em nosso vizinho andino a mais sangrenta ditadura do hemisfério no séc. XX – comandada por um animal de farda chamado Pinochet.
Confesso: fiquei com inveja dos chilenos e uma imensa vergonha do papel de ‘geni’ que a mídia assumiu e que os colegas jornalistas acabaram, também para manter o emprego, aceitando.





Carnaval deve ser no fim de janeiro – I

9 03 2011

Antes de mais nada, vamos ser simples e diretos: nós vivemos em um Estado laico. Ao menos é isto que está disposto em nossas Constiutições desde a edição do Decreto119-A, de 17 de janeiro de 1890, que instaurou a separação entre a Igreja e o Estado – ainda que a Constituinte de 1988 tenha apresentado falhas legislativas e tenha propositalmente, na minha opinião, tentado repor a dubiedade no que diz respeito à citação de Deus no preâmbulo da nossa Carta Magna. Estou, inclusive, entre aqueles que advogam a revogação do disposto na letra ‘b’, do item IV do Art. 150 – mas isto é pano para outra abordagem.
O tema de agora é esta farsa de que a data do carnaval não pode ser fixa por conta de ser ‘parte’ de um contexto religioso. E não adianta vir com esta história de tradição ou de democracia, porque o carnaval hoje em dia pode ser tudo – menos popular e democrático. Isto posto, quero passar a defender aqui uma tese simples, amparada numa cruel constatação: no Brasil, o ‘ano’ só começa depois do carnaval.
Levando isto como algo sério, temos que assumir: o domingo de carnaval precisa acontecer no último domingo de janeiro. Trata-se de uma questão de compromisso e de respeito com aqueles que efetivamente querem fazer parte da construção de um novo País.
Do jeito que hoje está, é ruim para empresas, para escolas e também para quem trabalha.
Eu não vejo razão para esta besteira de ser a Páscoa – que eu como Cristão respeito e, ao lado do Natal, considero as datas magnas da Cristandade – um feriado móvel. Deixemos de lado a hipocrisia. A Igreja Católica que se vire, afinal de contas é apenas uma data de referência e, como disse no começo, vivemos um estado LAICO. Assim, se o Natal incide sempre no dia 25 de dezembro, qual a justificativa para a Páscoa ter data móvel?
Do ponto de vista do País, colocar o carnaval na última semana de janeiro elimina esta estupidez que joga tudo para ‘depois das festas’, como se a vadiagem de nossa classe política ainda precisasse de um argumento a mais. O mesmo valeria para o Judiciário, sendo que o Carnaval serviria como um fecho de ouro ao seu justo e merecido recesso.
Todo mundo sairá lucrando com o Carnaval na última semana de janeiro.
Veja o caso das escolas, públicas e privadas. Os próprios professores açulam esta percepção nas crianças desde muito jovens. Dia destes, conversando com os filhos sobre o andamento e a assimilação de novos conteúdos, disseram-me patéticos que ‘tudo vai começar pra valer depois do carnaval’.
Hora… somos um País que não pode estar preso a este tipo de desculpas, a um posicionamento assim leviano frente à vida.
Voltarei ao tema mais vezes, porque não tolero esta hipocrisia, este cinismo e a leviandade como o Brasil é tratado por suas ‘mentes dirigentes’ e por oportunistas de plantão.





Por trás da queda

3 03 2011

Confesso que ontem, depois do anúncio da queda de Emir Sader, fiquei preocupado com o rumo que este governo da Dilma está tomando. Volto a repisar uma tecla que me angustia: o PT já ocupou, no coração da elite, o espaço que antes era reservado ao PSDB. Se voltarmos ao começo dos anos 90, haveremos de nos lembrar que a agremiação tucana surgiu com um forte discurso social-democrata – que é hoje o retrato mais acabado deste PT.
A caminhada para o centro, sem preconceitos se aliando com agrupamentos de centro direita e de centro esquerda, já forçou os tucanos a adotarem um discurso de extrema-direita nas eleições de 2010. Digo, inclusive, se os tucanos quiserem sobreviver, terão de ocupar o espectro, o espaço e o campo que hoje está nas mãos do Demo, do PV, do PPS, do PTB e um sem fim de siglas que não chegam a se configurar em partidos – assumindo, também, a aliança com as alas mais conservadoras da maçonaria, tfp, udr, igrejas católica e pentecostais e outros grupos.
Com a ida do PT para o centro, com uma forte visão social-democrata nos moldes europeus dos anos 60 e 70, e com a ida do PSDB para a extrema-direita, há espaço sim para um partido de esquerda – ideia que deve mover boa parte de quem está no PSB, mas este sofre também pelo fato de sua cúpula ser de centro, com fortes pendores para a direita.
Assim… quem fica na esquerda? Nem Pstu e nem Psol dão sinais de capacidade política de transcenderem a dimensão de agrupamentos – com bons e preparados quadros, mas ainda carecendo de maior interação com o conjunto da sociedade, com dificuldade de levar a sua mensagem e sendo estereotipado até mesmo pela mídia, que acolheu o PT e rejeita divulgar as ações destes grupos efetivamente de esquerda.
Dentro desta visão, o episódio Emir Sader revela algumas questões fundaentais e isto ficou claro na extremada alegria com que comentaristas de TV, de jornais/blogues/portais e de rádio, ligados ao conservadorismo e obscurantismo da mídia comentavam que Ana de Holanda havia vencido a queda de braço contra os petistas. Também confirma, como já disse antes, que o PT hoje é o partido de centro que as elites adotaram.
Este episódio vem na esteira de outras ações de Dilma que deixam a militância de cabelos em pé, como a presença no convescote da Folha, nos programas de tititi e na relutância do governo de assumir a luta política pela regulação da mídia.
Para quem esperava que Dilma ajudasse a embicar o barco do governo um pouco a bombordo pode ir se acostumando com a certeza de que a timoneira está mais interessada em flertar a estibordo/boroeste. A travessia até 2014, ao que tudo indica, será de muitas e outras tantas frustrações de curso e não se admirem se esta mesma militância começar a trabalhar silenciosamente pela volta inexorável de Lula nas próximas eleições.





Três cores de emoção

2 03 2011

O Bruno Henrique, gremista de paixão e entrega, fez uma edição de imagens muito legal tendo como música Três cores de emoção – letra de Alfredo Bessow e música/voz do Lucas Araújo.
Valeu Bruno Henrique e que Deus sempre te mantenha este menino talentoso e especial.





Lembranças de um olhar diante do portão do cemitério

1 03 2011

Terça-feira! Dia de fechar as edições do Correio do Metrô e do Passe Livre. Mas eis que de repente me vem uma saudade sem fim de quem já se foi, mas segue vivo em voz, gestos, imagens e ensinamentos dentro de mim. São os golpes da vida…

A saudade

Alfredo Bessow

Era um fim de tarde,
talvez setembro se bem me lembro
ou quem sabe abril – como saber?
Era um fim de tarde destes quando o sol
espicha sombras a chamar a noite
Ali paramos, de a cavalo, em silêncio…
Um portão de cemitério é sempre gelado
por mais mãos que o toquem e abram
ele sempre fecha, como sina ou destino

E ali, olhamos e vi teus olhos
na única vez em que choraram
e quando negaciei o corpo pra apear
dissestes apenas que esperasse
que teu coração já estava voltando

De repente lanhastes a espora no pampa
que se bandeou num galope largo
como a carregar bem mais que meu pai
E me fui, a trote seguindo rastros
e colhendo ensinamentos

Hoje, quando chego no portão
do mesmo cemitério pra te rever
eis que te vejo sempre de novo
a me dizer: teu coração me visita
nos fins de tarde quando o sol
espichando sombras a nos juntar

Na distância do que jamais podemos ser
a cada dia o caminho constrói
um reencontro – a galope, a trote
nestas marcas do que somos
e que depois serão de outros
que hoje me acompanham em silêncio
diante do portão do cemitério…





Patrulhas ideológicas na blogosfera

28 02 2011

Passada a eleição de 2010, quando houve uma natural convergência e sinergia de todos os blogueiros inconformados – que alguns erroneamente ainda tentam enquadrar e estereotipar como ‘progressistas’ – em favor da candidatura de Dilma Rousseff (até para oferecer um contraponto de informação e de resistência ao apoio massivo da mídia tradicional em favor da candidatura de José Serra), é mais do que natural que as diferenças que antes eram relegadas a um segundo plano, passem a destacar os olhares distintos entre os vários atores daquela verdadeira batalha virtual que foi travada.
Para mim, o primeiro ponto de discórdia sempre foi a questão da tentativa de padronização partidária que alguns tentam impor para os blogueiros – como se todos tivessem que responder a uma só cartilha. Passo seguinte – e num certo sentido até anterior a tudo isso – foi a percepção de que um grupo (que eu chamo de panela) tentou servir de referência para todos os blogueiros. As coisas naturais também podem ser impostas e este grupo passou a agir da mesma forma que a grande mídia. Quis se transformar em emissor e fonte onde ‘los de abajo’ deveriam se espelhar e sempre reproduzir os seus comentários. É, em síntese, o mesmo procedimento que a chamada ‘grande mídia’ faz com a mídia sem grife, na infeliz expressão de uma certa secretária de comunicação.
Lembro bem que passada a eleição, esta panela conseguiu uma audiência/entrevista com o então presidente Lula. Fui o primeiro a denunciar que, a despeito da importância daquele evento, era uma demonstração de desrespeito da panela com o conjunto dos blogueiros. Deixei bem claro que ali não havia representatividade, tendo em vista que a escolha foi a partir de vínculos de amizade, de conveniências grupias, afinidades ideológicas/partidárias. Para falar a verdade, até hoje não sei o que foi tratado na entrevista, porque sou de um tempo onde o conceito de democracia só tinha valor com uma efetiva prática democrática cotidiana.
Estes assuntos que incomodam e questionam, são sempre escamoteados e eliminados por uma força tarefa que tem o papel de massacrar qualquer ponto de vista diferente. Existe um grupo dentro do grupo que tem o papel de dizer o que o grupo pode discutir. A blogosfera está em polvorosa, principalmente nos grupos de discussão. Onde antes havia uma condescendência com as diferenças, uma convergência por conta do desafio maior que era ajudar a derrotar o obscurantismo e o atraso, agora ficam cada vez mais claras as diferenças.
Assustados, alguns observam por exemplo que a presidente Dilma Rousseff e o seu partido, o PT, continuam mantendo a mesma política de bajulação da grande mídia. Parece que nem o PT e nem a Dilma aprenderam com as eleições de 2006 e 2010. Mas nisto não deve haver nenhuma surpresa, tendo em vista a imensa dificuldade do PT em trabalhar um projeto de comunicação que não seja de subserviência. Não é só o Suplicy, o Mercadante e o Vacarezza que fazem das tripas coração para ocuparem espaços na TV Globo, na Veja, na Folha e nos demais ‘grandes’ meios de manipulação e de desinformação. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, por exemplo, está cada vez menos convicto de que vai ser possível efetivar a regulação dos meios de comunicação. E olha que ele ainda parece ser uma das poucas vozes comprometidas com esta bandeira.
Pode-se dizer que no campo da esquerda há um preconceito muito grande com posicionamentos críticos. Há um olhar torto e rancoroso para quem pensa diferente, para quem não tem o hábito de curvar a espinha. Talvez pela visão ‘partidarizada’ que sempre move as pessoas. Talvez pela compreensão, dos ‘capas’, de que eles sabem o que a raia miúda deve pensar. Talvez pela doutrinação excessiva, como se sempre houvesse um inimigo externo a ser abatido – real ou imaginário. Talvez por outra razão qualquer, mas a verdade é que o pensar diferente incomoda e quem o exercita, acaba sendo vítima das perversas patrulhas ideológicas.
Alguns aspectos causam pavor e espanto, principalmente porque há indícios de que muitos gostariam de monitorar e de tutelar a blogosfera, mantendo-a quietinha e ordeira, dentro de um comportamento que não contempla nenhum questionamento. Quando a presidente Dilma foi na festa da Folha, quem ousou criticar a atitude dela foi patrulhado – como se a nós, povo, fosse dado apenas o direito de aplaudir os atos dos ‘eleitos’.
Posso falar com tranquilidade sobre o assunto, porque o ato da presidente Dilma não me frustrou e nem me surpreendeu. Apenas confirmou o pior dos presságios que tenho comigo: deste mato, não vai sair cachorro. Basta observar que a visão que hoje domina o PT é muito semelhante a visão que as elites têm de boa parte dos assuntos prioritários para o País (deles). Ao migrar para o centro e flertar com grupos de centro-direita, o PT acabou se transformando na alternativa segura para boa parte das elites. Pode-se dizer, gerando ódios, que o PT acabou sendo aquilo que a elite esperava do PSDB.
Dentro desta minha visão, a ida da presidente Dilma para o regabofe da Folha foi um tapa de mão cheia na cara dos militantes, mas algo pra lá de natural dentro da visão – volto a dizer – de boa parte dos dirigentes petistas que sonham em fazer as pazes com a mídia, em serem aceitos pela mídia. Fazem de tudo para isso, inclusive deixam de lado a lei que deveria botar ordem no grande prostíbulo que é a comunicação em nosso País.
O quadro é desanimador, porque não há uma alternativa a esta situação.
Observo estarrecido a juvenilização, no pior sentido, dos preparativos para o II Encontro Nacional dos Blogueiros. A realização dos chamados encontros estaduais em lugar de servir prioritariamente para a discussão da realidade local, está sendo usado, de modo dissimulado, para a escolha da claque que irá para o Nacional. É dentro desta visão que digo que a partidarização da blogosfera é um risco muito grande – porque foi esta prática que acabou matando e tirando a representatividade da UNE, da CNBB, da OAB e de tantas outras instituições históricas. Ao servirem para defesa ‘corporativa’, acabaram se suicidando.
Sejamos francos, depois das eleições de 2010, quem ainda consegue levar a sério algum posicionamento da CNBB? E com as últimas diretorias da OAB, alguém ainda considera o posicionamento dela para qual coisa? E a UNE… que se transformou apenas em uma entidade em defesa do lucro das carteirinhas?
Quem não tiver bem claro o valor pelo respeito à diversidade de pontos de vista de quem faz a blogosfera precisa rever seus conceitos. Ou assumir o papel de dono da verdade. Não adianta bater no peito e se ufanar da democracia quando em nível pessoal coloca em prática o pior dos obscurantismos que é revelado pelo patrulhamento ideológico.





Um pouco de poesia: Por certo que não te esquecerei

27 02 2011

O que são os versos, esta magia da escrita que é vida – ainda que muitas vezes apenas canta o medo do inevitável de perdas e desenganos? Difícil dizer, difícil pensar.
De um velho caderno onde anoto rabiscados poemas, este numa noite de sábado – madrugada de domingo surgindo…

Por certo que não te esquecerei

Por certo que não te esquecerei
Ainda que meus olhos se encantem
do encanto de outros olhares, levarei
a descoberta do amor e as razões menores
que nos tornam órfãos e peregrinos
Como se nada houvesse além das certezas,
que vivem no brilho dos olhos
e no calor trêmulo das mãos

Há papéis dispersos sobre mesas
que se avolumam feito sótão
entreaberto e também fechado
meio mistério, meio magia – impreciso,
mas universo único de buscas e encontros

Por isso,
meu falar é de amores
e neles há dores e perdas –
que se reencontram em palavras
Também carrego em mim
estes pesos nos olhos
que nos tornam menos capazes
de estar no amanhã
sem chorar