Para PMN, Jaqueline foi ingênua. Alguém mais acredita?

9 03 2011

Transcrevo a seguir a carta de Jaqueline Roriz na qual ela anuncia ao PMN que ‘renuncia’ sua vaga na Comissão da Reforma Política. Depois, vem uma peça que é verdadeira obra de ficção e de cinismo: a carta do PMN. E, pot fim, a matéria veiculada pelo G1.

1 – Carta de Jaqueline

Ilma Sr.

Telma Ribeiro dos Santos
Secretária-Geral Nacional do PMN

Cara amiga,

Quando pleiteei uma vaga para o Partido da Mobilização Nacional, na Comissão Especial da Reforma Política, no colégio de líderes da Câmara dos Deputados, o fiz com a convicção de que o nosso PMN e seus militantes têm uma valorosa contribuição a dar a essa comissão.

A reforma política é necessária e essencial para o avanço da democracia no Brasil, para o seu aperfeiçoamento e para toda a classe política. O atual modelo é falho e precisa ser revisto com a maior brevidade possível.

Aprendi que os interesses da sociedade, de um grupo político, devem prevalecer acima de qualquer interesse individual ou vontade pessoal e, neste contexto, solicito a minha substituição na Comissão Especial representando o PMN.

Continuarei contribuindo com propostas que façam com que o País encontre mecanismos eleitorais ainda mais democráticos, que ajudem a minimizar as injustiças sociais do nosso Brasil.

Deputada Federal Jaqueline Roriz
Presidente do PMN do Distrito Federal

2 – Agora este primor de cinismo que é a nota oficial do PMN

Partido da Mobilização Nacional, em resposta ao questionamento da imprensa em geral acerca do acontecimento ocorrido em 2006, envolvendo a atual Deputada Federal Jaqueline Roriz eleita em 2010 por esta Agremiação, vem registrar o que segue:

-I- ao convidarmos, em 2009, a então Deputada Distrital para ingressar em nossas fileiras, o fizemos baseados nas informações então colhidas de se tratar de uma pessoa de boa índole e fácil trato, filha zelosa, mãe dedicada, esposa amantíssima, estimada pela população, com estabilidade financeira, interessada no exercício da ação política, permitindo-nos visualizar um futuro promissor e uma carreira em ascensão;

-II- lamentamos profundamente que com esse perfil – por moto próprio ou induzida por terceiros – tenha se deixado envolver ingênua e desnecessariamente numa prática nefasta, própria de agentes políticos de pequena expressão, com tibieza ética, moral e intelectual, sem horizontes e carreira curta;

-III- lamentamos igualmente a transformação do instituto da “delação premiada” num instrumento de manipulação política de que a sociedade brasileira não é merecedora;

-IV- lamentamos também que – com elogiáveis exceções – alguns jornalistas venham se especializando em promover antecipadamente e a seu bel-prazer o linchamento moral de algumas pessoas, quando é visível o “poupamento” de outras cujo enriquecimento súbito causa estranheza, tanta vez que incompatível com o currículo de atividades até então exercidas;

-V- por fim, não pretendendo invadir a competência dos Órgãos a que a matéria está e estará submetida, reserva-se esta Direção – sem prejuízo das providências internas que achar conveniente adotar, aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

São Paulo, 09 de março de 2011

TELMA RIBEIRO DOS SANTOS
Secretária Geral Nacional

Por fim, a matéria veiculada no G! – o portal de notícias da Globo.

09/03/2011 15h59 – Atualizado em 09/03/2011 16h12
Jaqueline Roriz anuncia saída da comissão de reforma política

Deputada federal foi indicada ao cargo pelo PMN.
Ela aparece em vídeo recebendo dinheiro de pivô do mensalão do DEM.

Iara Lemos
Do G1, em Brasília

A deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), flagrada em um vídeo recebendo dinheiro de Durval Barbosa, delator do mensalão do DEM de Brasília, entregou nesta quarta-feira (9) um pedido oficial para deixar a comissão especial da reforma política da Câmara dos Deputados. Jaqueline foi indicada pelo PMN para o cargo.

“Aprendi que os interesses da sociedade, de um grupo político, devem prevalecer acima de qualquer interesse individual ou vontade pessoal e, neste contexto, solicito a minha substituição na Comissão Especial representando o PMN”, disse a deputada, por meio de nota oficial. A nota foi encaminhada à secretária-geral do PMN, Telma Ribeiro dos Santos.

No texto, a deputada critica o modelo político no Brasil. “A reforma política é necessária e essencial para o avanço da democracia no Brasil, para o seu aperfeiçoamento e para toda a classe política. O atual modelo é falho e precisa ser revisto com a maior brevidade possível”, disse a deputada.

A deputada, contudo, não fez nenhuma referência ao vídeo em que apareceu recebendo dinheiro do delator do suposto esquema de corrupção. O assessor da família Roriz, Paulo Fona, disse que a deputada não irá se manifestar sobre o vídeo.

Na manhã desta quarta, a direção do PMN divulgou nota afirmando que aguardará o “o desenrolar dos acontecimentos “sobre o caso Jaqueline Roriz (PMN-DF)”. O partido disse lamentar que Jaqueline Roriz “tenha tenha se deixado envolver ingênua e desnecessariamente numa prática nefasta, própria de agentes políticos de pequena expressão, com tibieza ética, moral e intelectual, sem horizontes e carreira curta”.

Ainda nesta quarta, a assessoria do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, informou que ele pedirá ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito para apurar o caso. Segundo a assessoria de Gurgel, o procurador-geral deve solicitar nos próximos dias a abertura de inquérito contra a deputada, que tem foro privilegiado e só pode ser investigada com autorização do STF.





No DF, boataria deixa eriçada as viúvas de Arruda e Roriz

8 03 2011

Se alguém ‘de fora’ chagasse em Brasília durante o carnaval e falasse aleatoriamente com as pessoas que encontrasse, certamente formaria um juízo segundo o qual haverá um terremoto político nos próximos dias, algo capaz de não deixar pedra-sobre pedra envolvendo Tribunal de Contas, Juízes, Ministros de Cortes Superiores e Magistrados do TJDFT, deputados federais, distritais, senadores, equipes do GDF e mesmo meios de comunicação.
A divulgação do vídeo com a Jaqueline Roriz ‘olhando’ o dinheiro embolsado por seu marido e flagrado pela filmadora do Durval Barbosa serviu para deixar em polvorosa o povo que alimenta a central de boatos. Alguns são irresponsáveis, outros sonham com a implosão de tudo que aí está pelo simples fato de que ficaram alijados das benesses que tinham em governos anteriores. Separar o interesse pessoal do que pode ser verossímel é desafio pra lá de complexo.
Trocando mensagens via twitter com o também jornalista Rodrigo Vianna, deixei claro que, na minha avaliação, o ponto central é saber de onde o vídeo saiu – vazou. Ao que parece, este e supostamente outros vídeos teriam sido liberados pelo MP. Por trás desta ação, seria importante saber qual a motivação deste material ter sido divulgado só agora – tendo em vista que se tivesse sido veiculado antes das eleições teria impugnado a candidatura da filha de Roriz.
Há uma outra corrente que diz ser este apenas o primeiro de uma série de vídeos. E sempre apontam para a existência de coisas escabrosas envolvendo todo mundo. Volto a dizer: boato é uma coisa, fato é outra. É preciso, também, enfatizar que este material entregue pelo Durval foi cortado/editado segundo as suas conveniências. Ou seja: talvez nem ele (Durval) tenha mais a gravação na íntegra. Um excerto isolado do contexto é sempre uma faca de dois gumes e é escolhido muito mais pelo interesse ou vantagem pessoal do que amparado pela verdade.
Longe de mim pensar Durval como uma figura importante – ainda mais se levarmos em conta que a divulgação das primeiras imagens foi parte de uma estratégia do ex-governador Roriz de alijar Arruda do cenário político local. Para mim, ele é tão venal e abjeto quanto os que foram flagrados por sua câmera. E, num certo sentido, ele acaba sendo uma figura necessária – mas ao mesmo tempo desprezível porque não joga limpo, joga de acordo com sua estratégia.
Para ser bem sincero: não acredito nesta boataria. O que eu percebeo, volto a dizer, que há muito mais o desejo de alguns do que qualquer conexão com a realidade. E a realidade do momento, que pode ser desmentida quando algum destes boatos de hoje tiverem a materialização das imagens, é uma só: pegaram a filha do Roriz com a mão na massa.
O resto, reitero, é boato.





Pegaram a filha de Roriz com a mão na massa!

4 03 2011

Uma verdadeira bomba explodiu nesta sexta-feira de pré-carnaval aqui em Brasília: o Ministério Público divulgou um vídeo onde Jaqueline, filha de Roriz e tida como a aposta do clã para continuar sugando as tetas do Estado, está, junto com o marido, pegando dindin com Durval Barbosa. Dindin e também pedindo estrutura para a campanha.
A despeito do teor explosivo do vídeo – que a exemplo do carnaval de 2010 coloca outro político da turma do atraZo na bica de ser preso ou no mínimo cassado – fica a pergunta: por quais razões só agora o MP está liberando este material? O que mais está guardado lá na ‘pinacoteca’? Durval entregou tudo de uma vez ou está entregando na base do conta-gotas? Se está afzendo a entrega por etapas, isto quer dizer que houve uma ruptura dele com Roriz?
Antes que me digam que não é pinacoteca, vou explicar: é cada quadro surrealista que vem surgindo… É neste sentido que digo ‘pinacoteca’. Coloco isto porque tempos atrás escrevi que queriam ‘caçar’ o Tiririca e vieram dizer que estava errado. Eu queria dizer caçar mesmo, de abater, de tirar do cenário…
Voltando ao post… Como fica agora a situação política dela? Já era uma deputada que frequentava um escalão abaixo do baixo-clero – e depois da revelação destas imagens fica a pergunta: Por que só agora?
A bomba serviu para alimentar a turma do boato, aqueles que juram saber toda verdade, cochichando e dizendo que a ‘pinacoteca’ de Durval é razão para tirar o sono de muitos azuis, verdes e vermelhos de todos os matizes. Pergunta-se: a quem interessa este jogo de soltar aos poucos o conteúdo do material, como vem fazendo o MP? Esta gravação tem continuidade? O que mais está guardado?
Enfim… lá está outra vez o nome do DF envolvido com podridão!





Libertadores 2011: naufrágio a vista ou apenas turbulência?

4 03 2011

A largada da Libertadores da América 2011 não tem sido aquela idealizada pelos clubes e incentivada pela chamada mídia esportiva. O fato de termos os principais clubes do País na disputa – Grêmio, Inter, Corinthians, Santos, Fluminense e Cruzeiro – gerava a certeza de que a principal disputa seria para saber quem seria o vencedor. Os demais times de outros países seriam apenas e tão somente figurantes.
Olhando a performance dos clubes, apenas pelos resultados – afinal de contas assisti somente um jogo de cada time – a situação é tensa.
Dois clubes estavam na fase eliminatória da Libertadores, que alguns erroneamente chamam de pré-Libertadores. O Grêmio foi sofrível nos dois jogos contra o Liverpool de Montevidéu, que mais parecia um time de amigos do bar que se reúnem para uma pelada, mas ao menos passou para a fase seguinte. Pior foi o Corinthians, que simplesmente não jogou diante do Tolima. Com esta performance, o time virou motivo de piada e constrangimento para sua sofrida massa de torcedores.

Grupos

Favorecidos por tabelas que possibilitaram dois jogos em sequencia em casa, Flu (grupo 3) e Cruzeiro (grupo 7) vivem realidades distintas. O primeiro respira por aparelhos e o segundo encaminhou bem a sua classificação com todos os indicativos de que fará a melhor campanha. Indicativos, não certeza… O Flu, por sinal, tem jogo decisivo no Engenhão dia 23 contra o mesmo América que o derrotou esta semana.
Quem não está conseguindo empolgar ninguém é o Santos (grupo 5), que contratou muitos jogadores e demitiu o técnico. Fez dois jogos, empatou ambos e ainda está devendo. Está em 3º no grupo, mas não deve ter problemas para se classificar. Pode ser beneficiado pelo fato de ter dois jogos ‘na volta’ na Baixada.
O Inter (grupo 6) é um enigma. Dono do maior plantel do futebol brasileiro, o time vive uma incompatibilidade entre os métodos do seu treinador e o gosto da torcida. Tem credenciais para ser tri, mas vai se defrontar com um desafio regional depois do carnaval: com o fracasso do chamado Inter B, o time A terá de se desdobrar em duas competições – algo que não é do agrado do treinador. Empatou fora, um jogo que estava ganho e fez 4 em casa – sem jogar bem. Fechará sua participação jogando em casa.
O Grêmio chegou à Libertadores amparado por uma surpreendente reação no Brasileirão e principalmente ao fracasso do Goiás na final da Sul-americana. O time de 2011 não consegue a mesma mecânica de jogo de 2010 – e o time se tornou previsível e repetitivo. E isto se deve não apenas por ter perdido Jonas, mas por conta de algumas bizarrices de seu treinador – como esta teimosi em jogar com dois centroavantes de área e manter a escalação de Carlos Alberto que parece ganhar a titularidade por afinidade e não por qualidade. Ao contrário de muitos, creio que o Grêmio precisa de um zagueiro pela direita, um lateral esquerdo e um atacante de velocidade – que poderia ser Éder Luis do Vasco, o único que tem algumas características de 2º atacante de velocidade.
Na minha opinião, o Grêmio entrará como 2º do grupo, mas pode crescer na fase do mata-mata.

Resumindo

Dos times brasileiros, apenas o Cruzeiro está dando conta do recado. O Fluminense decepciona. O Santos empaca. O Inter se debate em suas dúvidas, inclusive da conveniência de manter o treinador. E o Grêmio ainda busca reencontrar sua cara…





Jornal Passe Livre nº 490

3 03 2011

Esta é a edição online do jornal PASSE LIVRE que estará sendo distribuído nesta quinta-feira, dia 03, na Rodoviária (urbana) de Brasília. Em destaque, o quiproquó dos petistas do DF que estão descontentes com o rumo da gestão Agnelo na Capital da República.


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Patrulhas ideológicas na blogosfera

28 02 2011

Passada a eleição de 2010, quando houve uma natural convergência e sinergia de todos os blogueiros inconformados – que alguns erroneamente ainda tentam enquadrar e estereotipar como ‘progressistas’ – em favor da candidatura de Dilma Rousseff (até para oferecer um contraponto de informação e de resistência ao apoio massivo da mídia tradicional em favor da candidatura de José Serra), é mais do que natural que as diferenças que antes eram relegadas a um segundo plano, passem a destacar os olhares distintos entre os vários atores daquela verdadeira batalha virtual que foi travada.
Para mim, o primeiro ponto de discórdia sempre foi a questão da tentativa de padronização partidária que alguns tentam impor para os blogueiros – como se todos tivessem que responder a uma só cartilha. Passo seguinte – e num certo sentido até anterior a tudo isso – foi a percepção de que um grupo (que eu chamo de panela) tentou servir de referência para todos os blogueiros. As coisas naturais também podem ser impostas e este grupo passou a agir da mesma forma que a grande mídia. Quis se transformar em emissor e fonte onde ‘los de abajo’ deveriam se espelhar e sempre reproduzir os seus comentários. É, em síntese, o mesmo procedimento que a chamada ‘grande mídia’ faz com a mídia sem grife, na infeliz expressão de uma certa secretária de comunicação.
Lembro bem que passada a eleição, esta panela conseguiu uma audiência/entrevista com o então presidente Lula. Fui o primeiro a denunciar que, a despeito da importância daquele evento, era uma demonstração de desrespeito da panela com o conjunto dos blogueiros. Deixei bem claro que ali não havia representatividade, tendo em vista que a escolha foi a partir de vínculos de amizade, de conveniências grupias, afinidades ideológicas/partidárias. Para falar a verdade, até hoje não sei o que foi tratado na entrevista, porque sou de um tempo onde o conceito de democracia só tinha valor com uma efetiva prática democrática cotidiana.
Estes assuntos que incomodam e questionam, são sempre escamoteados e eliminados por uma força tarefa que tem o papel de massacrar qualquer ponto de vista diferente. Existe um grupo dentro do grupo que tem o papel de dizer o que o grupo pode discutir. A blogosfera está em polvorosa, principalmente nos grupos de discussão. Onde antes havia uma condescendência com as diferenças, uma convergência por conta do desafio maior que era ajudar a derrotar o obscurantismo e o atraso, agora ficam cada vez mais claras as diferenças.
Assustados, alguns observam por exemplo que a presidente Dilma Rousseff e o seu partido, o PT, continuam mantendo a mesma política de bajulação da grande mídia. Parece que nem o PT e nem a Dilma aprenderam com as eleições de 2006 e 2010. Mas nisto não deve haver nenhuma surpresa, tendo em vista a imensa dificuldade do PT em trabalhar um projeto de comunicação que não seja de subserviência. Não é só o Suplicy, o Mercadante e o Vacarezza que fazem das tripas coração para ocuparem espaços na TV Globo, na Veja, na Folha e nos demais ‘grandes’ meios de manipulação e de desinformação. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, por exemplo, está cada vez menos convicto de que vai ser possível efetivar a regulação dos meios de comunicação. E olha que ele ainda parece ser uma das poucas vozes comprometidas com esta bandeira.
Pode-se dizer que no campo da esquerda há um preconceito muito grande com posicionamentos críticos. Há um olhar torto e rancoroso para quem pensa diferente, para quem não tem o hábito de curvar a espinha. Talvez pela visão ‘partidarizada’ que sempre move as pessoas. Talvez pela compreensão, dos ‘capas’, de que eles sabem o que a raia miúda deve pensar. Talvez pela doutrinação excessiva, como se sempre houvesse um inimigo externo a ser abatido – real ou imaginário. Talvez por outra razão qualquer, mas a verdade é que o pensar diferente incomoda e quem o exercita, acaba sendo vítima das perversas patrulhas ideológicas.
Alguns aspectos causam pavor e espanto, principalmente porque há indícios de que muitos gostariam de monitorar e de tutelar a blogosfera, mantendo-a quietinha e ordeira, dentro de um comportamento que não contempla nenhum questionamento. Quando a presidente Dilma foi na festa da Folha, quem ousou criticar a atitude dela foi patrulhado – como se a nós, povo, fosse dado apenas o direito de aplaudir os atos dos ‘eleitos’.
Posso falar com tranquilidade sobre o assunto, porque o ato da presidente Dilma não me frustrou e nem me surpreendeu. Apenas confirmou o pior dos presságios que tenho comigo: deste mato, não vai sair cachorro. Basta observar que a visão que hoje domina o PT é muito semelhante a visão que as elites têm de boa parte dos assuntos prioritários para o País (deles). Ao migrar para o centro e flertar com grupos de centro-direita, o PT acabou se transformando na alternativa segura para boa parte das elites. Pode-se dizer, gerando ódios, que o PT acabou sendo aquilo que a elite esperava do PSDB.
Dentro desta minha visão, a ida da presidente Dilma para o regabofe da Folha foi um tapa de mão cheia na cara dos militantes, mas algo pra lá de natural dentro da visão – volto a dizer – de boa parte dos dirigentes petistas que sonham em fazer as pazes com a mídia, em serem aceitos pela mídia. Fazem de tudo para isso, inclusive deixam de lado a lei que deveria botar ordem no grande prostíbulo que é a comunicação em nosso País.
O quadro é desanimador, porque não há uma alternativa a esta situação.
Observo estarrecido a juvenilização, no pior sentido, dos preparativos para o II Encontro Nacional dos Blogueiros. A realização dos chamados encontros estaduais em lugar de servir prioritariamente para a discussão da realidade local, está sendo usado, de modo dissimulado, para a escolha da claque que irá para o Nacional. É dentro desta visão que digo que a partidarização da blogosfera é um risco muito grande – porque foi esta prática que acabou matando e tirando a representatividade da UNE, da CNBB, da OAB e de tantas outras instituições históricas. Ao servirem para defesa ‘corporativa’, acabaram se suicidando.
Sejamos francos, depois das eleições de 2010, quem ainda consegue levar a sério algum posicionamento da CNBB? E com as últimas diretorias da OAB, alguém ainda considera o posicionamento dela para qual coisa? E a UNE… que se transformou apenas em uma entidade em defesa do lucro das carteirinhas?
Quem não tiver bem claro o valor pelo respeito à diversidade de pontos de vista de quem faz a blogosfera precisa rever seus conceitos. Ou assumir o papel de dono da verdade. Não adianta bater no peito e se ufanar da democracia quando em nível pessoal coloca em prática o pior dos obscurantismos que é revelado pelo patrulhamento ideológico.





O custo do lazer

24 02 2011

O Correio do Metrô edição 398, que circula no DF com data de 24/fev a 02/mar, traz instigante artigo sobre a dependência cada vez maior imposta pelo dinheiro às pessoas – que perderam a capacidade de conversar, dialogar, rir e fazer algo sem o tal do dinheiro. Levando em conta que o Correio do Metrô circula apenas no DF, com tiragem de 12 mil exemplares, a publicação do artigo aqui no blog possibilita que esta oportuna reflexão da psicóloga e jornalista Sandra Fernandes seja compartilhada por toda a blogosfera.

O custo do lazer

Sandra Fernandes*

Se há duas coisas no mundo que combinam são criança e diversão. Em nenhum outro momento da vida uma simples brincadeira de correr, pular ou cantar proporciona tanto prazer. De todas as regalias deixadas na infância, a que mais lamento é a perda daquela sensação gostosa de correr, correr, ficar ofegante e feliz. Toda aquela euforia que a bioquímica fornecia generosamente, agora só é conquistada com muito esforço, método e determinação. Eram outros tempos. Mas não eram outros tempos apenas para o meu relógio biológico. Eram outros tempos também para toda a sociedade. Para a gente se divertir, bastava descer para debaixo do bloco, reunir a meninada e alguém levar uma bola, ou nem isso. Brincar de esconde-esconde, por exemplo, requeria apenas nossa presença – ou a dissimulada ausência. Com o passar dos anos, o capitalismo foi transformando o lazer em consumo. Brincar passou a ser cada vez mais caro.
Os encontros diários com os amigos ficaram menos frequentes e passaram a ser em parte substituídos pela internet. As recreações de rua deram lugar aos jogos eletrônicos, cada dia mais sofisticados e dispendiosos. A obsolescência programada dos jogos infantis chega a ser assustadora. Uma plataforma sucede a outra e os jogos, às dezenas, vão sendo descartados para dar lugar ao novo – palavra mágica do capitalismo. Junte a isso o aumento da criminalidade nas grandes cidades que leva os pais a não permitir que as crianças passem o dia brincando na rua. As muitas notícias de crimes e o aumento do consumo de drogas fez com que os meninos e meninas que coloriam e animavam as quadras de Brasília passassem a ficar mais tempo nas casas e apartamentos. Assim, a mão calçou a luva. Os fabricantes vendem mais e os pais se tranquilizam sabendo que, enquanto trabalham, suas crianças estão a salvo, em casa. Mas isso custa caro.
Não é custo, alguns poderiam objetar, é investimento. Sem dúvida, os jogos eletrônicos desenvolvem habilidades essenciais ao cidadão do futuro. Saber lidar com a tecnologia é fundamental para quem não pretende passar os próximos cinquenta anos em uma oca isolada na floresta amazônica e as crianças precisam estar preparadas para um mundo cada dia mais eletrônico. Acontece que, como em todo movimento social, às vezes, as coisas fogem do controle e extrapolam o desejável. E não é apenas de jogos que estou falando. Incluo aqui os shoppings, templos do consumo, que transformaram a diversão em produto a ser comprado. Nada contra o cinema, a lanchonete. O problema é quando as pessoas já não conseguem mais encontrar outra alternativa de lazer que não seja comprada. Aquela capacidade natural de rir e de se divertir ficou obsoleta. Estar com o outro exige sempre a intermediação de alguma mercadoria. O carinho é vendido na forma de presentes, lanches e ingressos e a inclusão, o pertencimento e o valor social estão relacionados à capacidade de ver primeiro o filme da moda, de usar as roupas da estação e de frequentar os restaurantes badalados.
Trabalhei alguns anos como terapeuta familiar. Convivi com famílias egressas de divórcio em que a condição financeira ficou abalada pela necessidade de sustentar duas casas, ao invés de uma. Notava a grande dificuldade de pais, crianças e adolescentes em encontrar diversão, agora que não dispunham mais dos mesmos recursos. É como se tivessem sido jogadas em um mundo estranho, sem mapa, sem GPS. Como encontrar os amigos sem ir ao shopping? Como passear com os filhos sem recorrer à indústria do fastfood? Mas, aos poucos, as pessoas iam descobrindo novas alternativas e percebendo que eram donas de suas vidas, de seus relacionamentos, de seu prazer. Muitos perceberam que os verdadeiros amigos são aqueles que gostam de estar conosco, simplesmente.
Não podemos permitir que nos convençam que a felicidade vem com código de barras e que dependemos deles – sejam eles quem for – para vivermos momentos de prazer, tranquilidade e confraternização.

* Sandra Fernandes – jornalista e psicóloga





Jornal Passe Livre nº 489

24 02 2011


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Eu defendo e apóio a CPMF

22 02 2011

Podem me xingar, podem me atacar – mas eu assumo e defendo: sou a favor da CPMF (com este nome ou com o nome que vierem a criar). E tenho esta posição não apenas pela convicção pessoal de que mais do que um tributo, a CPMF é um valoroso instrumento contra a sonegação, uma ferramenta eficaz em favor das ações da Receita e da PF contra a sonegação, contra a lavagem de dinheiro e contra os crimes do sistema financeiro.
Alguém já parou para reparar que depois do fim da CPMF, diminuíram as ações contra lavagem de dinheiro? Na realidade, a derrubada da CPMF foi uma cruzada conjunta da oposição política do Senado, segmentos empresariais que adoram sonegar, a mídia que precisava derrotar Lula e setores comprometidos do STF com toda uma engrenagem que não é salutara o Estado e aos brasileiros. O Senado rejeitou a CPMF e o STF armou um verdadeiro circo contra os grampos. Chegou a tal nível de ridículo que pela primeira vez tivemos a transcrição de um diálogo que nunca foi escutado por mais ninguém (aquele onde o senador Demóstenes, do Demo-GO, simulava uma conversa com seu velho parceiro Gilmar, ministro de FHC e defensor de FHC e seu legado no Supremo).
Pode-se dizer que a Fiesp bancou financeiramente a campanha contra a CPMF porque ela sabia e sabe – por isso já prometeu lutar contra a nova versão da CPMF – que da forma como ela foi elaborada – e olha, isto é um elogio a FHC! – ela representava sempre um risco para os contraventores, sonegadores e assemelhados. Não é errado também dizer que a outrora gloriosa OAB se posicionou contra a CPMF por uma prosaica e corporativa razão: tratava-se do único tributo, dentre o emaranhado tributário nacional, onde advogados não ganhavam nada.
Eu sempre achei estranho ninguém lutar pelo fim de coisas como Pis/Cofins – mas é compreensível: trata-se da maior fonte de corrupção e uma garantia de renda para muitos que são diretamente envolvidos na máquina de liminares e de pareceres. São milhares de ações e recursos para justificar a sonegação do Pis/Cofins e, portanto, não interessa terminar com este mecanismo que justifica preços e enriquece quem não produz e nem faz nada e penaliza os mais pobres…
Assim, é importante destacar: o retorno da CPMF – com qualquer que seja seu nome – é importante não apenas para injetar recursos na saúde – mas principalmente para oportunizar à Receita e a PF terem mais um mecanismo na sua luta contra a sonegação, a corrupção e a lavagem de dinheiro.
Por fim, um lembrete: os mesmos empresários, políticos, jornalistas e oportunistas que mentiam descaradamente dizendo que a CPMF tinha impacto final de 5% no preço dos produtos e serviços foram desmentidos pela realidade. A CPMF foi revogada e nenhum produto ou serviço diminuiu de valor.
Espera-se que desta vez o Governo tenha mais competência para enfrentar a guerra midiática que será travada. Basta mostrar a verdade e quais os verdadeiros objetivos dos que lutam contra a CPMF.





Um pouco de poesia

20 02 2011

A boa leitura e a escrita sempre tiveram o poder de me impulsionar em busca de novos desafios, para vencer adversidades, medos e a própria percepção da finitude humana.
Esta semana, chegaram enfim exemplares de três dos quatro dos livros que lancei, dos quais não tinha mais nenhum exemplar. É uma estranha sensação de você rever o que foi escrito depois de muito tempo.
Por falar em livro… em 2011 pretendo publicar o livro Caceio e cerco – com poemas que têm o mar (de Floripa, da Praia da Armação – para ser mais específico) como ‘pano de fundo’.
Neste sábado, publico três dos poemas do livro:

Ausências

confesso:
eu os guardo em mim
indeléveis peregrinos
unidos ao acaso
pelo acaso, unidos

distintos em verdades
marcados no gesto
de quem descobre a coragem
de parar o tempo
para ser amigo

assim, sem despedidas
apenas um vazio diferente
não de dor ou angústia
e levo estranha felicidade
de vozes, imagens, palavras


Outro poema:

Visão

curvado sobre mim mesmo
busco mares e areias
que continuam
em geografias ocasionais,

por vezes
há um barco perdido
e eu sem braços
sinto que a água me traga

mas onde águas
se este mar é miragem
ilusão que os olhos criam
para acalmar o coração?

já pouco vejo do que sou
e é o barco que se adensa
na medida em que se aproxima
mais longe fico do que fui

ouço vozes em minha voz
só meu corpo em meu corpo não existe
e o barco
curvado sobre mim mesmo
é ataúde onde guardo
mares e areias que visito em mim
a cada manhã


e o terceiro…

A cegueira dos dias

tenho medo dos meus olhos
por tudo que viram
no seu verde-azul
eu temo que me neguem
por nada o direito
à nova manhã

só eles ainda resistem
última fortaleza
guardam tesouros e medos
que voltam sempre
quando as mãos não encontram
o que a memória insiste em reter

meus olhos ainda enxergam
o que o meu corpo já não vê,
fragmentos do todo
partes dispersas – mosaico
disforme e dissonante
estilhaços e pedaços
apenas, mas tudo