A insanidade da Folha

3 10 2010

Tenho para mim que as eleições deste ano entram para a história como o divisor de águas acerca do papel que os meios de comunicação assumem em toda e qualquer campanha. Não que em 2010 tenha sido diferente do que foi nos anteriores. A postura golpista dos meios de comunicação está presente desde antes do suicídio de Vargas.
A diferença é que este ano trouxe um novo protagonista para o ringue: uma blogosfera onde jornalistas mais bem preparados do que os que estavam escrevendo nos jornais fez, pela primeira vez, um contraponto à manipulação.
Não houve nenhuma mentira montada contra Dilma e veiculada pela mídia tradicional, por exemplo, que tenha resistido mais de seis horas de desconstrução pela blogosfera – sendo que a mídia tradicional, muitas vezes, demorou dias para assumir o erro (em alguns casos, a despeito de todas as provas e evidências, manteve-se apegada a sua versão e contribuindo, por teimosia, para o seu próprio descrédito).
O protagonismo propositivo da blogosfera estabeleceu o antes inexistente contraditório – algo assim primário, elementar, mas que pela primeira vez fez valer a diferença. E não se diga, como Serra e alguns sabujos, que o ‘nosso’ papel tenha sido o de fazer o jogo sujo. Pelo contrário: coube a este segmento fazer a limpeza da sujeira colocada na mídia e na rede.
Ao exteriotipar os adversários como ‘sujos’, Serra, a mídia e a elite por seus porta-vozes, acabou atraindo a atenção de muitos para as baixarias veiculadas contra Dilma, a montagem grotesca de fotos, as inverdades e as insanidades – que iam repercutindo em antas como Merval, Eliane, Reinaldo, Diogo. Na medida em que iam sendo desmascarados e condenados, eles próprios tornaram-se vítimas das próprias leviandades.
Assim, um fugiu e os outros foram ficando cada qual do seu verdadeiro tamanho intelectual, profissional e de subserviência profissional. Ou alguém ainda tem estômago para escutar Miriam Leitão? Ou alguém vai me dizer que não ficou arranhada a credibilidade do JN pela agressividade com que o Bonner, esta coisinha rica e fofa, atacou Dilma ao ser entrevistada? Ou não virou hit o pedido de desculpas ao ter que cortar Serra? Ou alguém haverá de esquecer que em face da repercussão negativa da entrevista até a Globo teve que soltar nota dizendo-se neutra?
Não faltam exemplos. Depois das eleições – mesmo que ocorra o improvável 2º turno – jornais como O Globo, Zero Hora (que é um verdadeiro câncer a corroer o RS e só quero ver se o Tarso Genro vai ter coragem de governar sem se ajoelhar para o povo da RBS), Folha de São Paulo e o Estadão terão de se reinventar ou serão cada vez mais jornais identificados apenas com um segmento derrotado da sociedade). O mesmo vale para revistas como a Veja – a despeito de algumas derrapadas, percebe-se que a famiglia Marinho parece que tirou as mãos do Kammel da linha editorial da Época. A TV terá de conviver cada vez mais com outra realidade: ela é a imagem da decadência.
Goste-se ou não de Edir Macedo enquanto empresário – permito-me como Luterano não questionar a suposta teologia da igreja por ele criada – mas a verdade é que ele partiu ativamente para o confronto. Não teve medo. Não aceitou a chantagem global. Correu o risco e está enfrentando a Globo e seus tentáculos com a mesma estratégia de sempre: sem recuar.
Mas… nada superou uma declaração de impotência que a Folha de São Paulo estampou na capa do portal Folha Online:

É o reconhecimento da impotência: Conheça os cargos em disputa; aprenda a votar branco ou nulo.





Folha de São Paulo: lição de hipocrisia

18 07 2010

O Uol levou ao ar, na manhã deste domingo, um dos textos mais porcos, vergonhosos e carregados de cinismo e de hipocrisia. Poucas vezes se viou tanta venalidade, tanta pilantragem reunida em um só texto no qual, a empresa que se esmerou em emprestar veículos para a ditadura militar, tenta se mostrar como arauta da ética e do ‘bom jornalismo’.
Trata-se da demonstração clara de que para as pseudo-elites, o escárnio é a forma delas se relacionarem com a sociedade.
Eis o texto: um primor de sabujice e de desrespeito para com a inteligência e a dignidade dos brasileiros.

18/07/2010 – 10h23
Folha reafirma princípios editoriais
DE SÃO PAULO

Em 1984, ao lançar seu primeiro Projeto Editorial, a Folha cristalizou no “Manual da Redação” a opção por um jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno, que deveria ser feito com “intransigência técnica”.

A última versão do projeto, divulgada em 17 de agosto de 1997, está reproduzida na atual edição do manual e reafirma o compromisso da Folha com aqueles quatro princípios editoriais.

O texto do “Manual da Redação” afirma: “Tais valores adquiriram a característica doutrinária que está impregnada na personalidade do jornal e que ajudou a moldar o estilo brasileiro da imprensa nas últimas décadas”.

A cobertura eleitoral deste ano, assim, não poderia fugir desse script.

Diferentemente do que ocorre em jornais de outros países –como nos Estados Unidos, onde o “New York Times” publicou o editorial “Barack Obama para presidente”–, a Folha não apoia nenhuma candidatura.

Em um ambiente político polarizado, princípios editoriais bem definidos tornam-se balizas que ajudam o jornal a manter-se equidistante das campanhas, fazendo uma cobertura isenta sem perder o tom crítico.

A atual versão do Projeto Editorial atualizou aqueles princípios à luz das transformações ocorridas durante a década de 90 “na política, na economia, nas ideias”.

Assim, a disposição crítica do jornal deveria tornar-se mais refinada e aguda, num cenário em que “o debate técnico substituiu, em boa medida, o debate ideológico”.

Do ponto de vista da política, o “Manual da Redação” determina um jornalismo “crítico em relação a todos os partidos políticos, governos, grupos, tendências ideológicas e acontecimentos”.

O pluralismo, por sua vez, não poderia resumir-se na busca formal pelo “outro lado”. Deveria, mais que isso, “renovar-se na busca de uma compreensão mais autêntica das várias facetas implicadas no episódio jornalístico”.

O verbete “pluralismo” do manual estabelece que “todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar representadas no jornal”.

E a atitude apartidária, que “obriga a um tratamento distanciado em relação às correntes de interesse”, não poderia ser “álibi para uma neutralidade acomodada”.

Segundo Suzana Singer, ombudsman da Folha, a existência desses parâmetros bem estabelecidos é fundamental para guiar a cobertura eleitoral.

De acordo com ela, o jornal até agora tem seguido esses princípios. Ainda assim, Singer afirma que recebe reclamações dos leitores.

“A maioria das reclamações políticas que recebo é sobre uma suposta proteção ao candidato do PSDB. Mas tem muita gente que acha o contrário, que a Folha é petista”, diz ela.





A morte do ombudsman na Folha

12 06 2010

Para quem gosta de comunicação, o artigo abaixo, que extraí do sítio da Agência Sindical, leia-se Franzin, revela como a Folha de São Paulo resolveu excluir qualquer vestígio de inteligência e democracia de sua redação e também de sua relação com os leitores.

A morte do ombudsman na Folha

Por Eduardo Guimarães

O jornal Folha de São Paulo inovou ao adotar um ombudsman no fim de 1989. Foi o primeiro – e, até hoje, o único – jornal de projeção nacional a empregar um profissional como esse, o que ajudou o veículo a assumir a liderança dos periódicos brasileiros.

Ombudsman é uma palavra sueca de dois gêneros que significa ouvidor atuante em empresas e órgãos públicos, mas que passou a ser mais usada para órgãos de imprensa.

A finalidade do ombudsman de meios de comunicação é a de criticá-los sob a ótica do publico e dos manuais de jornalismo.

Não se pode negar que a Folha teve ao menos um ombudsman de verdade, mas tampouco se pode ignorar que, por agir como tal, ele foi defenestrado.

Refiro-me a Mário Magalhães, que, por conta de colunas críticas acusando o partidarismo atucanado do jornal e a promiscuidade entre opinião e notícia, foi coagido a pedir demissão em abril de 2008.

Magalhães foi substituído por Carlos Eduardo Lins da Silva, que, apesar de ter sido um ombudsman mais “domesticado”, teve momentos de independência em que fez críticas análogas às de Magalhães.

Em fevereiro deste ano, Lins da Silva, que conheci pessoalmente e com quem mantive uma breve e cordial relação de suposta amizade, abriu mão de um terceiro ano no cargo.

Posso afirmar que ele abriu mão de continuar no cargo não só por conta dos ataques de leitores àquele que se tornaria alvo do inconformismo deles com o mau jornalismo da Folha, mas por perceber que o jornal decidira enquadrar o ocupante de tal cargo.

E foi o que aconteceu. Para um cargo que requer independência a Folha escolheu sua ex-secretária de Redação, que por seis anos ficou encarregada de ignorar as pregações desesperadas dos ombudsmans contra a crescente partidarização do jornal.

Desde 25 de abril, Singer vem publicando colunas dominicais na Folha que cumprem o objetivo de eliminar as acusações de engajamento político pró-PSDB e anti-PT que os três ombudsmans anteriores fizeram ao jornal.

Não era para menos. Em seu período à frente da Redação da Folha, Singer trocava mensagens (públicas e privadas) com os ombudsmans repudiando suas acusações de manipulação.

As colunas publicadas pela nova “ombudsman” desde 25 de abril têm se restringido a amenidades e se esquivado de abordar o viés político da Folha que lhe gera centenas de e-mails de protesto todos os dias.

A morte do cargo de ombudsman na Folha é emblemático do processo de decadência da grande imprensa brasileira, transformada em um partido político dissimulado que vem flertando, inclusive, com a criminalidade.

Eduardo Guimarães no blog da cidadania





Argentina: filhos adotivos e conivência

30 05 2010

Está nos portais: a Justiça Argentina – ah, como faz falta uma Justiça um pouco digna em nosso País! – determinou a coleta de material genético da dona do Jornal O Clarin. Por trás de uma notícia prosaica pode estar a ponta de um imenso iceberg que, uma vez confirmadas as suspeitas, pode jogar uma nova luz sobre as promíscuas relações dos donos dos meios de comunicação com os regimes ditatoriais.
Mas isto não se deu apenas ‘lá’. Aqui no Brasil, hoje é sabido que a Folha de São Paulo emprestava veículos para os órgãos de repressão.
Mas, vamos transcrever as matérias – a primeira da Folha Online, a segunda é da agência EFE e a terceira da BBC-Brasil.

29/05/2010-16h25

Justiça argentina ordena operação policial na casa de diretora do “Clarín”

GUSTAVO HENNEMANN
DE BUENOS AIRES

A Justiça argentina determinou ontem que a polícia entrasse na casa da diretora do grupo de mídia “Clarín”, Ernestina Herrera de Noble, com o objetivo de obter material genético necessário para exames de DNA de seus filhos adotivos, Marcela e Felipe.

Os dois são protagonistas de uma ação judicial iniciada em 2001, na qual entidades de direitos humanos sustentam que ambos foram raptados pelo regime militar instaurado em 1976 e, depois, entregues ilegalmente a Ernestina.

Durante uma audiência, na manhã de ontem, Marcela e Felipe haviam se recusado a fornecer amostras de sangue para comparar com o BNDG (Banco Nacional de Dados Genéticos), que reúne o DNA de todas as famílias que procuram crianças raptadas durante a ditadura.

Pouco depois, a polícia foi até a casa de Ernestina, onde os dois estavam, e levou as roupas que vestiam naquele momento. Para um canal de TV que pertence ao grupo Clarín, os dois disseram que estão sendo expostos pela juíza e que tiveram a ‘paz roubada’.

Marcela e Felipe já haviam fornecido amostras de sangue em dezembro, mas só permitiram que o DNA fosse comparado com o de duas famílias que procuram filhos desaparecidos e não com o BNDG.

O conflito judicial em torno dos filhos adotivos de Ernestina são parte da guerra declarada travada entre o grupo Clarín e o governo da presidente Cristina Kirchner, que apoia as entidades de direitos humanos que investigam o desaparecimentos de bebês durante o regime militar.

SERÁ… que não há nada semelhante entre n´´os?

09/04/2010

17h27

Filhos de diretora do “Clarín” farão comparação com DNA de desaparecidos

da Efe, em Buenos Aires

Os dois filhos adotivos da diretora do jornal argentino “El Clarín”, Ernestina Herrera de Noble, deverão comparar seu DNA com uma base de dados genéticos de pessoas desaparecidas durante a ditadura militar, apontou hoje o máximo tribunal penal de apelações da Argentina.

A decisão da Câmara Nacional de Cassação Penal satisfaz as reivindicações de organismos humanitários que pediam que os DNAs de Marcela e Felipe Noble Herrera fossem comparados com os do Banco Nacional de Dados Genéticos de desaparecidos.

No entanto, se limita a rejeitar uma apelação dos filhos adotivos de Ernestina, “pela existência de um crime formal”, sem pronunciar-se sobre a questão de fundo da longa batalha judicial que cerca o assunto, informou o Centro de Informação Judicial.

A sentença apontou que a apelação foi rejeitada por ser “inválida”, já que “não incluía as assinaturas dos afetados pela decisão, Marcela e Felipe Noble, mas só as de seus advogados”.

Afirmou, ainda, que o tribunal ditou sua decisão “sem considerar” se os estudos genéticos de Marcela e Felipe Noble deveriam ser comparados somente com os das duas famílias que apresentaram queixas ou com todo o banco de dados genéticos das vítimas da ditadura.

Felipe e Marcela Noble, ambos de 33 anos, foram adotados em 1976 por Ernestina, viúva de Roberto Noble, fundador do “Clarín”.

Uma das famílias suspeita que Marcela pode ser, na realidade, filha de Bárbara Miranda e de Roberto Lanuscou, militantes da guerrilha dos Montoneiros, dados por mortos em um tiroteio com militares em setembro de 1976.

A outra parte pede que se esclareça se Felipe seria filho de María del Carmen Gualdero, sequestrada em junho de 1976, quando estava quase dando à luz, e que desapareceu depois de ter sido levada a um prisão clandestina em Buenos Aires.

MAS HÁ MATÉRIAS/REPORTAGENS ANTERIORES QUE AJUDAM A COMPREENDER MELHOR O QUE SE PASSA PELAS TERRAS DE MARADONA E GARDEL:

29/12/2009 –  19h12

Herdeiros do “Clarín” fazem exame de DNA para determinar pais biológicos

MARCIA CARMO
da BBC Brasil, em Buenos Aires

Os dois filhos adotivos da diretora e dona do jornal Clarín, Ernestina Herrera de Noble, realizaram nesta terça-feira exames de sangue para definir se são filhos ou não de desaparecidos políticos durante a ditadura militar argentina (1976-1983).

“Hoje é um dia muito importante porque o exame pode ser feito onde a Justiça determinou, no Corpo Médico Forense, que é ligado ao sistema Judicial do país”, disse o advogado Jorge Anzorreguy, que defende Marcela e Felipe, ambos com 33 anos.

Segundo seu representante, Marcela e Felipe se apresentaram “espontaneamente” à Justiça em 2003, depois de terem sido informados de que poderiam ser filhos de desaparecidos políticos.

Em 2004, um juiz de primeira instância determinou que o exame de DNA fosse realizado no Corpo Médico Forense, mas desde então surgiu uma disputa judicial sobre o local da extração de sangue.

*Disputa *

O grupo argentino de defesa dos direitos humanos Avós da Praça de Maio deseja que os exames de DNA sejam comparados com os de 22 famílias que buscam netos que poderiam ser Marcela e Felipe.

Já os irmãos requisitaram que a comparação seja feita apenas com duas famílias.
O advogado das Avós da Praça de Maio, Mariano Gaitán, afirmou à BBC Brasil que a medida seria “ilegal” porque “desrespeita” uma lei aprovada em novembro passado.

O advogado afirma que a nova lei determina que os exames devem ser feitos no Banco Nacional de DNA e comparados com “todas as 200 famílias” que buscam seus parentes “sequestrados”, e não “com famílias específicas”. Gaitán diz que estuda pedir à Justiça a anulação do exame.

A expectativa é de que o resultado saia em entre 15 e 45 dias.

Histórico

A entidade Avós da Praça de Maio localizou até hoje cem jovens que recuperaram suas identidades após exames de DNA e passaram a saber que são filhos de desaparecidos políticos.

Em muitos casos, eles nasceram no cativeiro da mãe e foram entregues, ainda bebês, com nomes trocados, pelos militares a outras famílias.

As Avós estimam que pelo menos outros 400 jovens, agora com mais de 30 anos, ainda estejam na mesma situação.

Em novembro, o Congresso Nacional aprovou projeto de lei do governo da presidente Cristina Kirchner que autoriza a Justiça a determinar a recuperação compulsiva de amostras biológicas para determinar a identidade de supostos filhos de desaparecidos políticos.

A medida gerou polêmicas no país e levou a oposição a afirmar que o alvo eram os filhos adotivos de De Noble, em um momento de fortes diferenças do governo com a imprensa local, especialmente com o grupo Clarín.