Pajada da Modernidade

27 03 2011

Não sou, nunca fui e nem me atreveria pensar-me ou dizer-me ‘payador’ ou pajador – que é uma expressão mais compreensível e palatável lá pras bandas do sul, mas que é, a grosso modo, o versejador de improviso. Faço versos, que são minhas vozes dentro de mim, vozes que me transcendem e falam a outros o que é a vida que trago, terrunha ligação de onde vim.
Estes versos da ‘Payada da Modernidade’ são uma espécie de desabafo diante de tantas coisas que vamos vivenciando, que vamos tolerando e que servem apenas para roubar, um pouco a cada dia, nossa condição humana e nossa necessidade de acreditar nos sonhos e em nossa capacidade de transformá-los em realidade.
Espero que gostem!

Payada da modernidade
Alfredo Bessow

Eu pergunto aos senhores
de que valem arte e ciência
se os inventos dos doutores
não melhoram a existência?
Escuto tantas maravilhas
anúncios de vida centenária
e nas ruas vaga maltrapilha
a morte, parceira sanguinária

Mas de que adianta tudo isso
se hoje a vida perdeu valor,
pois o único compromisso
é o lucro do financiador?
Aqui grassam ancestrais epidemias,
tragédias, dores e calamidades
enquanto lá nas academias
se discute o além, a eternidade

Não me agrada o modismo
de santificar o dinheiro,
há tanto conformismo
que até fico triste, cabreiro
E os homens vivem assim
sem sonhos e nem ideais,
se arrastam rumo a um fim
reles seres, feito vegetais

Chuleio ao redor, desatino!
Nenhuma referência sobrou
inté os sonhos de menino
a ganância do lucro deturpou
Nos dias de hoje, tudo se negocia:
a fé, a honra e a lealdade
o ‘valor’ é reles ‘porcaria’
no culto à modernidade

Agora só vale o negócio
feito bodega de horrores
e um voraz e oculto sócio
manipulando os valores
Tudo se vende nesta ‘casa’:
fé, medalhas e lascas da cruz
quem tem vergonha ‘vaza’
pois fariseus nem poupam Jesus

Fico acabrunhado, entristecido,
faltam palavras pra expressar:
o mundo perdeu o sentido
e o homem quer se matar
Não vivo o hoje no passado,
mas o presente é duro de roer
fui em cerne falquejado
pra nunca me corromper

Por isso…
Minha tristeza o verso permeia
e se esvai a própria esperança
só o coração teimoso esperneia
diante de tanto caos e matança
Me despeço perguntando
do mesmo jeito que comecei
pra onde estão nos levando
os donos de tudo e da Lei?