Patrulhas ideológicas na blogosfera

28 02 2011

Passada a eleição de 2010, quando houve uma natural convergência e sinergia de todos os blogueiros inconformados – que alguns erroneamente ainda tentam enquadrar e estereotipar como ‘progressistas’ – em favor da candidatura de Dilma Rousseff (até para oferecer um contraponto de informação e de resistência ao apoio massivo da mídia tradicional em favor da candidatura de José Serra), é mais do que natural que as diferenças que antes eram relegadas a um segundo plano, passem a destacar os olhares distintos entre os vários atores daquela verdadeira batalha virtual que foi travada.
Para mim, o primeiro ponto de discórdia sempre foi a questão da tentativa de padronização partidária que alguns tentam impor para os blogueiros – como se todos tivessem que responder a uma só cartilha. Passo seguinte – e num certo sentido até anterior a tudo isso – foi a percepção de que um grupo (que eu chamo de panela) tentou servir de referência para todos os blogueiros. As coisas naturais também podem ser impostas e este grupo passou a agir da mesma forma que a grande mídia. Quis se transformar em emissor e fonte onde ‘los de abajo’ deveriam se espelhar e sempre reproduzir os seus comentários. É, em síntese, o mesmo procedimento que a chamada ‘grande mídia’ faz com a mídia sem grife, na infeliz expressão de uma certa secretária de comunicação.
Lembro bem que passada a eleição, esta panela conseguiu uma audiência/entrevista com o então presidente Lula. Fui o primeiro a denunciar que, a despeito da importância daquele evento, era uma demonstração de desrespeito da panela com o conjunto dos blogueiros. Deixei bem claro que ali não havia representatividade, tendo em vista que a escolha foi a partir de vínculos de amizade, de conveniências grupias, afinidades ideológicas/partidárias. Para falar a verdade, até hoje não sei o que foi tratado na entrevista, porque sou de um tempo onde o conceito de democracia só tinha valor com uma efetiva prática democrática cotidiana.
Estes assuntos que incomodam e questionam, são sempre escamoteados e eliminados por uma força tarefa que tem o papel de massacrar qualquer ponto de vista diferente. Existe um grupo dentro do grupo que tem o papel de dizer o que o grupo pode discutir. A blogosfera está em polvorosa, principalmente nos grupos de discussão. Onde antes havia uma condescendência com as diferenças, uma convergência por conta do desafio maior que era ajudar a derrotar o obscurantismo e o atraso, agora ficam cada vez mais claras as diferenças.
Assustados, alguns observam por exemplo que a presidente Dilma Rousseff e o seu partido, o PT, continuam mantendo a mesma política de bajulação da grande mídia. Parece que nem o PT e nem a Dilma aprenderam com as eleições de 2006 e 2010. Mas nisto não deve haver nenhuma surpresa, tendo em vista a imensa dificuldade do PT em trabalhar um projeto de comunicação que não seja de subserviência. Não é só o Suplicy, o Mercadante e o Vacarezza que fazem das tripas coração para ocuparem espaços na TV Globo, na Veja, na Folha e nos demais ‘grandes’ meios de manipulação e de desinformação. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, por exemplo, está cada vez menos convicto de que vai ser possível efetivar a regulação dos meios de comunicação. E olha que ele ainda parece ser uma das poucas vozes comprometidas com esta bandeira.
Pode-se dizer que no campo da esquerda há um preconceito muito grande com posicionamentos críticos. Há um olhar torto e rancoroso para quem pensa diferente, para quem não tem o hábito de curvar a espinha. Talvez pela visão ‘partidarizada’ que sempre move as pessoas. Talvez pela compreensão, dos ‘capas’, de que eles sabem o que a raia miúda deve pensar. Talvez pela doutrinação excessiva, como se sempre houvesse um inimigo externo a ser abatido – real ou imaginário. Talvez por outra razão qualquer, mas a verdade é que o pensar diferente incomoda e quem o exercita, acaba sendo vítima das perversas patrulhas ideológicas.
Alguns aspectos causam pavor e espanto, principalmente porque há indícios de que muitos gostariam de monitorar e de tutelar a blogosfera, mantendo-a quietinha e ordeira, dentro de um comportamento que não contempla nenhum questionamento. Quando a presidente Dilma foi na festa da Folha, quem ousou criticar a atitude dela foi patrulhado – como se a nós, povo, fosse dado apenas o direito de aplaudir os atos dos ‘eleitos’.
Posso falar com tranquilidade sobre o assunto, porque o ato da presidente Dilma não me frustrou e nem me surpreendeu. Apenas confirmou o pior dos presságios que tenho comigo: deste mato, não vai sair cachorro. Basta observar que a visão que hoje domina o PT é muito semelhante a visão que as elites têm de boa parte dos assuntos prioritários para o País (deles). Ao migrar para o centro e flertar com grupos de centro-direita, o PT acabou se transformando na alternativa segura para boa parte das elites. Pode-se dizer, gerando ódios, que o PT acabou sendo aquilo que a elite esperava do PSDB.
Dentro desta minha visão, a ida da presidente Dilma para o regabofe da Folha foi um tapa de mão cheia na cara dos militantes, mas algo pra lá de natural dentro da visão – volto a dizer – de boa parte dos dirigentes petistas que sonham em fazer as pazes com a mídia, em serem aceitos pela mídia. Fazem de tudo para isso, inclusive deixam de lado a lei que deveria botar ordem no grande prostíbulo que é a comunicação em nosso País.
O quadro é desanimador, porque não há uma alternativa a esta situação.
Observo estarrecido a juvenilização, no pior sentido, dos preparativos para o II Encontro Nacional dos Blogueiros. A realização dos chamados encontros estaduais em lugar de servir prioritariamente para a discussão da realidade local, está sendo usado, de modo dissimulado, para a escolha da claque que irá para o Nacional. É dentro desta visão que digo que a partidarização da blogosfera é um risco muito grande – porque foi esta prática que acabou matando e tirando a representatividade da UNE, da CNBB, da OAB e de tantas outras instituições históricas. Ao servirem para defesa ‘corporativa’, acabaram se suicidando.
Sejamos francos, depois das eleições de 2010, quem ainda consegue levar a sério algum posicionamento da CNBB? E com as últimas diretorias da OAB, alguém ainda considera o posicionamento dela para qual coisa? E a UNE… que se transformou apenas em uma entidade em defesa do lucro das carteirinhas?
Quem não tiver bem claro o valor pelo respeito à diversidade de pontos de vista de quem faz a blogosfera precisa rever seus conceitos. Ou assumir o papel de dono da verdade. Não adianta bater no peito e se ufanar da democracia quando em nível pessoal coloca em prática o pior dos obscurantismos que é revelado pelo patrulhamento ideológico.





Eu defendo e apóio a CPMF

22 02 2011

Podem me xingar, podem me atacar – mas eu assumo e defendo: sou a favor da CPMF (com este nome ou com o nome que vierem a criar). E tenho esta posição não apenas pela convicção pessoal de que mais do que um tributo, a CPMF é um valoroso instrumento contra a sonegação, uma ferramenta eficaz em favor das ações da Receita e da PF contra a sonegação, contra a lavagem de dinheiro e contra os crimes do sistema financeiro.
Alguém já parou para reparar que depois do fim da CPMF, diminuíram as ações contra lavagem de dinheiro? Na realidade, a derrubada da CPMF foi uma cruzada conjunta da oposição política do Senado, segmentos empresariais que adoram sonegar, a mídia que precisava derrotar Lula e setores comprometidos do STF com toda uma engrenagem que não é salutara o Estado e aos brasileiros. O Senado rejeitou a CPMF e o STF armou um verdadeiro circo contra os grampos. Chegou a tal nível de ridículo que pela primeira vez tivemos a transcrição de um diálogo que nunca foi escutado por mais ninguém (aquele onde o senador Demóstenes, do Demo-GO, simulava uma conversa com seu velho parceiro Gilmar, ministro de FHC e defensor de FHC e seu legado no Supremo).
Pode-se dizer que a Fiesp bancou financeiramente a campanha contra a CPMF porque ela sabia e sabe – por isso já prometeu lutar contra a nova versão da CPMF – que da forma como ela foi elaborada – e olha, isto é um elogio a FHC! – ela representava sempre um risco para os contraventores, sonegadores e assemelhados. Não é errado também dizer que a outrora gloriosa OAB se posicionou contra a CPMF por uma prosaica e corporativa razão: tratava-se do único tributo, dentre o emaranhado tributário nacional, onde advogados não ganhavam nada.
Eu sempre achei estranho ninguém lutar pelo fim de coisas como Pis/Cofins – mas é compreensível: trata-se da maior fonte de corrupção e uma garantia de renda para muitos que são diretamente envolvidos na máquina de liminares e de pareceres. São milhares de ações e recursos para justificar a sonegação do Pis/Cofins e, portanto, não interessa terminar com este mecanismo que justifica preços e enriquece quem não produz e nem faz nada e penaliza os mais pobres…
Assim, é importante destacar: o retorno da CPMF – com qualquer que seja seu nome – é importante não apenas para injetar recursos na saúde – mas principalmente para oportunizar à Receita e a PF terem mais um mecanismo na sua luta contra a sonegação, a corrupção e a lavagem de dinheiro.
Por fim, um lembrete: os mesmos empresários, políticos, jornalistas e oportunistas que mentiam descaradamente dizendo que a CPMF tinha impacto final de 5% no preço dos produtos e serviços foram desmentidos pela realidade. A CPMF foi revogada e nenhum produto ou serviço diminuiu de valor.
Espera-se que desta vez o Governo tenha mais competência para enfrentar a guerra midiática que será travada. Basta mostrar a verdade e quais os verdadeiros objetivos dos que lutam contra a CPMF.