Zé Alencar – nem santo e nem demônio. Apenas humano

29 03 2011

Eu, a exemplo de milhares de brasileiros, acompanhei a luta estóica de Zé Alencar contra este famigerado câncer que é uma espécie de espada de Dâmocles a brandir e brilhar ameaçadora sobre a cabeça de cada um de nós. Sempre o coloquei em minhas orações, como coloco a todos os que não conheço – mesmo os que são meus inimigos apenas porque discordam dos meus pontos de vista.
Se para alguns o ser humano é o conjunto de suas próprias contradições, Zé Alencar é exemplo dos muitos ‘eus’ que vive em cada um de nós. Para mim, duas lembranças ficarão para sempre emoldurando a imagem do mineiro bonachão e bom de prosa, arraigado em sua fé.
De um lado, o empresário que teve coragem, convencido (segundo o Roberto Jefferson, do PTB, a custa de muito dinheiro) a ser vice de Lula – rompendo assim um estigma cuidadosamente criado pela mídia, colocando sob a imagem de Lula (e do PT) toda sorte de defeitos (alguns reais). Foi a vinda de Zé para ser vice de Lula que possibilitou quebrar uma barreira eleitoral e tornar-se palatável para a classe média.
Este Zé Alencar entra para a história como aquela figura que ajudou a mudar a história política nacional. E além do mais é um exemplo de dignidade, ao não aceitar que o tratamento médico fosse pago pelo governo, sempre bancando-o com a opulência do seu cheque. Quantos teriam a mesma dignidade?
Mas há um outro Zé, menos louvável e que nem por isso deve ser esquecido neste momento de sua morte. Foi o Zé que não aceitou fornecer material para o DNA que poderia determinar a obrigatoriedade dele em reconhecer a paternidade de uma filha supostamente sua gerada de uma relação com uma mulher que trabalhou com enfermeira em um clube em Caratinga. Para defender-se, Zé disse que se tratou de um affair regiamente remunerado – enfatizando em entrevistas que teve vários casos na zona e que não teria como se lembrar de todos.
Foi ridículo e patético escutar e ler esta grande figura reduzir-se a pouco mais do que nada com esta negativa. Para mim, ele é igual a Pelé ao não reconhecer uma filha tida de um relacionamento com uma pessoa humilde – antes da fama, antes do poder, antes de ficar rico.
São as múltiplas facetas, mas acima de tudo a revelação do quanto somos, em verdade, contraditórios e múltiplos. Algo que é superior ao mito e ao idealizado como símbolo e referência.
Descanse em paz, Zé.