Sou politicamente incorreto

31 12 2009

Nós, enquanto sociedade, estamos enveredando por um caminho cada vez mais sedutor e perigoso. Em lugar de pautarmos nossa vida, nossas relações e nossa forma de ver o mundo segundo alguns parâmetros e referências, optamos por algo bem mais simples e prático: a cada situação avaliamos apenas as conveniências. Ou seja: deixamos de agir segundo um conjunto de pressupostos éticos, de leis e códigos e passamos a reagir não mais segundo o que somos, mas seguindo normas dominantes naquele meio em que estamos naquele momento.

É assustador perceber como a cultura da condescendência pode ser maléfica e destrutiva. O meio está definindo que aqueles que pensam, que estudam, que lêem e que, portanto, são capazes de formular pressupostos e têm coragem de viver referenciados por eles, estes devem ser isolados, eliminados ou ridicularizados. São os chamados radicais – onde maniqueisticamente a palavra ‘radical’ é associada a posturas fundamentalistas e não pontos de vista fundamentados no conhecimento.

Há uma tirania a impor suas verdades, que é esta bizarrice que atende pelo nome de “politicamente correto”. Trata-se de embuste comportamental que traz, como base de aplicação, a ditadura de uma minoria com acesso aos meios de comunicação, que se definem como “formadores de opinião” e que, por isso mesmo, são imolados (mas mantidos vivos) e tratados como donos da verdade. Cria-se uma norma de conduta, encontra-se um segmento disposto a assumir a “idéia” como sendo sua e deste momento em diante torna-se errado o seu questionamento ou a sua avaliaçãos egundo limites éticos. Desta forma, os grupos se estabelecem como pequenas gestapos a perseguir quem não aceita curvar-se aos códigos definidos pelo segmento que se abriga sob o manto do “politicamente correto”.

É uma avalanche tão poderosa que as pessoas optam por aceitar tudo, ainda que não concordem com nada. Temem o isolamento e o opróbrio. Quem resolve enfrentar esta verdadeira correia de transmissão da idiotia que vai se coletivizando, este corre o risco de viver exilado entre os seus, como se estivesse carregando dependurada no pescoço uma ostra* a remetê-lo ao vazio. Sentir-se solitário entre os iguais, sem ter com quem falar, conversar ou interagir.

Dia destes, conversando com o também jornalista Beto Almeida de Brasília, convergimos a conversa sobre o medo que a esquerda e os que se pensam de esquerda têm em se assumir “nacionalistas”. É algo absurdo este receio em divergir, em assumir e em mostrar a importância de um pensamento de esquerda comprometido com um projeto nacional, de fortalecimento das estruturas nacionais e não de usurpação. Como também é também inconcebível, para mim, que um partido de esquerda não tenha como prática o centralismo democrático, pressuposto leninista e que é esquecido pelos ideólogos – e tenho para mim que são ideólogos que jamais leram Trotsky, Lênin, Gramsci e já nem falo em Marx e Engels, que daí seria querer demais.

A esquerda nacional está cada vez mais parecida com a direita – deixando de agir e passando a reagir. E deixa de agir por não ter formulação política e por não ter investido na qualificação de sua militância, preferindo mantê-la em sua maioria como ‘tarefeira’ e não partícipe. E passa a reagir como forma de manter a ocupação dos espaços sociais, deixando de agir no sentido de mudá-los pelo “medo” de perder algo que pensa ter conquistado, quando na realidade deveria se pensar parte ou agente de um processo.

Sou assumidamente alguém que defende o “politicamente incorreto” como caminho para vencer um padrão onde as relações estão fadigadas por não apresentarem perspectiva de mudanças – e não pensem que se possa pensar em alguns arroubos e rompantes como demosntração de que existe algo diferente no horizonte do nosso cotidiano.

Precisamos voltar a ter coragem de não sermos aceitos, de sermos criticados e de sermos até mesmo ridicularizados por insistirmos em ter ponto de vista próprio, em acreditar em valores e referências.

Claro que sei que é muito mais fácil, simples, de prazer inebriante e de palmas da patuléia e da claque sempre disponível a louvar quem fala o que “eles” querem e precisam ouvir. Mas quem foi que disse que eu esotu interessado com o que é mais fácil?

Alfredo Bessow, jornalista e escritor

* Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss 3.0,  ostracismo: “na antiga Grécia, desterro político, que não importava ignomínia, desonra nem confiscação de bens, a que se condenava, por período de dez anos, o cidadão ateniense que, por sua grande influência nos negócios públicos e por seu distinto merecimento ou serviços, se receava que quisesse atentar contra a liberdade pública”.