A TFP vai continuar apoiando o Serra?

17 10 2010

Hoje, domingo-17, de manhã ao chegar em casa depois de ter ido ao culto, me deparei com uma cena de arrepiar – pelo que fez relembrar, coisas que não vivi, mas que sei pelos relatos de quem viveu naquele tempo de trevas: em minha rua, um abutre velho com um estandarte de Plínio Coirrêa de Oliveira, um carro 0km com uma caixa de som e quatro jovens batendo de porta-em-porta, entregando material pela fé, contra os comunistas e pédindo voto no beato Serra.
Fiquei esperando que chegassem até a porta da minha casa, não o fizeram talvez pelo fato de haver nela uma faixa de Agnelo e Dilma, talvez por meu carro estar adesivado ou pela fama que eu carrego por já ter escorraçado outros devotos deste catolicismo mais conservador, retrógrado e perverso que a Igreja Católica abriga. Abriga, protege e num certo sentido incentiva.
De qualquer sorte, resta uma pergunta: a TFP, que tanto preza pela integridade da família, continuará apoiando Serra mesmo depois da revelação de que os dois (Mônica e José) fizeram aborto nos anos 70?

Em tempo:

Que fique bem claro: não faço nenhum juízo de valor ou julgamento da opção que Serra e Mônica fizeram acerca do aborto. Alegar situação de ‘vulnerabilidade’ é tão óbvio que chega a ser risível: toda mulher e/ou casal é levado ao aborto por uma situação de vulnerabilidade. O que resta aguardar é se o Serra terá uma atitude de homem e vai ser solidário com a esposa Mônica ou vai deixar sobre os ombros dela a responsabilidade individual de uma prática que, no caso do casal, sempre é tomada pelos dois.





José Serra já fez aborto?

16 10 2010

Antes que me questionem, quero dizer que no caso de um casal, geralmente a opção pelo aborto é uma decisão dos dois. Trata-se de algo muito denso emocionalmente para ser decidido por uma só pessoa. Portanto, o aborto que saupostamente teria sido particado por Mônica Serra também teve como ‘partícipe’ o seu marido.
Em relação à expressão de que os dois – ela e o Serra – estariam em uma situação muito vulnerável, é preciso deixar de lado a hipocrisia: toda pessoa ou casal que é levado a fazer aborto (ou, no caso do Serra, ser parte do aborto) está numa situação vulnerável.
Transcrevo abaixo a reportagem de Mônica Bérgamo veiculada na edição de hoje da Folha de São Paulo e disponível tambémna íntegra para os assinantes no endereço: (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1610201011.htm)
Por fim, e antes que as pessoas comecem a dizer que estão envolvendo a vida familiar na eleição, esta situação só ocorreu pelas baixarias tucanas na rede – inclusive questionando a sexualidade de Dilma Rousseff, mãe, mulher e digna e honesta. Além do mais, foi esta figura ignóbil da Mônica Serra quem acusou a Dilma de matar criancinhas e, sabe-se agora, que a história não é bem assim…

Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna

Reportagem tentou ouvir mulher de candidato tucano por dois dias, sem sucesso

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por “valores cristãos”, que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra.
Num evento no Rio, há um mês, a psicóloga teria dito a um evangélico, segundo a Agência Estado, que a candidata Dilma Rousseff (PT), que já defendeu a descriminalização do aborto, é a favor de “matar criancinhas”.
Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido.
Depois do golpe militar no Brasil, Serra se mudou para o Chile, onde conheceu a mulher. Em 1973, com o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder, o casal se mudou para os Estados Unidos.

OUTRO LADO
A Folha tentou falar com Monica Serra durante dois dias para comentar o relato das ex-alunas, sem sucesso.
Um dia depois do debate da TV Bandeirantes, no domingo, 10, a bailarina Sheila Canevacci Ribeiro, 37, postou uma mensagem em seu Facebook para “deixar a minha indignação pelo posicionamento escorregadio de José Serra” em relação ao tema.
Ela escreveu que Serra não respeitava “tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Monica Serra já fez um aborto”. A mensagem foi replicada em outras páginas do site e em blogs.
“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático”, escreveu Sheila no Facebook. “Devemos prender Monica Serra caso seu marido fosse [sic] eleito presidente?”
À Folha a bailarina diz que “confirma cem por cento” tudo o que escreveu. Sheila afirma que não é filiada a partido político. Diz ter votado em Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno. No segundo, estará no Líbano, onde participará de performance de arte.
Se estivesse no Brasil, optaria por Dilma Rousseff (PT). Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, que foi aluna de mestrado na USP de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993. Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado pela primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008).
Militante feminista, Majô foi candidata derrotada a vereadora e a vice-prefeita em Osasco pelo PSDB.
A socióloga disse à Folha estar “preocupada” com a filha, mas afirma que a criou para “ser uma mulher livre” e que ela “agiu como cidadã”.
Sheila é casada com o antropólogo italiano Massimo Canevacci, que foi professor de antropologia cultural na Universidade La Sapienza, em Roma, e hoje dirige pesquisas no Brasil.
A Folha localizou uma colega de classe de Sheila pelo Facebook. Professora de dança em Brasília, ela concordou em falar sob a condição de anonimato.
Contou que, nas aulas, as alunas se sentavam em círculos, criando uma situação de intimidade. Enquanto fazia gestos de dança, Monica explicava como marcas e traumas da vida alteram movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana.
Segundo a ex-estudante, as pessoas compartilhavam suas histórias, algo comum em uma aula de psicologia.
Nesse contexto, afirmou, Monica compartilhou sua história com o grupo de alunas. Disse ter feito o aborto por causa da ditadura.
Ainda de acordo com a ex-aluna, Monica disse que o futuro dela e do marido, José Serra, era muito incerto.
Quando engravidou, teria relatado Monica à então aluna, o casal se viu numa situação muito vulnerável.
“Ela não confessou. Ela contou”, diz Sheila Canevacci. “Não sou uma pessoa denunciando coisas. Mas [ela é] uma pessoa pública, que fala em público que é contra o aborto, é errado. Ela tem uma responsabilidade ética.”

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Colaboraram LIGIA MESQUITA e MARCUS PRETO , de São Paulo